Aurambé – Introdução
maio 23, 2009 em Aurambé
Ouça por um momento a batida do seu coração e a compare com a que reverbera das entranhas da anciã Terra.
Solte sua mente e seu coração juntos numa jornada em busca das aventuras que são reveladas apenas para os verdadeiros buscadores.,
Não deve ser tão difícil assim ouvir o canto constante desse mundo enorme e misterioso, nem mesmo ritmar o compasso de sua respiração com a natureza escondida em um casulo.
Imagine por um momento que o solo abaixo dos teus pés é testemunha de uma era fantástica e inimaginável! Não deve ser tão difícil.
Guie suas sensações por épicos não contados, histórias ocultas de povos que estiveram aqui antes que a Terra congelasse novamente, deixe seus sentidos acelerarem acima da velocidade da luz voltando no tempo.
Não é apenas paradoxal, nem mesmo apenas irreal: É estranho e confuso.
Para aqueles que enxergam o mundo como uma linha reta sem desvios ou vertentes, numa simples sucessão cíclica de fatos e acontecimentos, é coisa estranha por demais para aceitar tão facilmente.
Sua mente já consegue trafegar por planos de fantasia?
Então lentamente o mundo a sua volta emite uma voz suave e grave como os roncos de um organismo colossal acordando de seu longo sono.
Assustar-se não é a resposta.
O caminho se faz em deixar-se levar por cada batida, por cada canto, pois essas batidas e cantos são seu coração que agora bate junto com o da anciã.
Você se torna um com ela, ela que abrigou seus antepassados e nutriu as gerações que os separam, ela que viu o nascer e a ascensão dos povos, ela que fala através de você a cada ato.
Nessa dança singular onde você respira os ares antediluvianos é possível ver ao longe as aves magníficas que jamais se pensou existir: Você encontra uma possibilidade.
E se antes de tudo que é relatado e conhecido como história, professado e ensinado, existiu presença humana aqui?
Num tempo onde mal se produziam ferramentas de pedra, e se em nosso continente abrigaram-se povos e construções que causariam espanto até mesmo aos mais exigentes faraós?
Ao se abrir para essas possibilidades, você ouve as palavras de Aurambé, as palavras que o vento escolheu contar sobre uma época que pode ter existido, mas que dentro de você já tem um lugar especial que causa comoção e uma estranha sensação de nostalgia.
Eras no passado, milênios antes do que nossa história atual pode contar, o nosso continente foi o lar de vários povos. Não eram os (assim chamados) índios e nem mesmo viajantes de outros continentes recém-chegados, eram o povo da terra.
Não tinham um único nome pois não eram um único povo. Não tinham um único deus pois não tinham nem mesmo uma única religião. Como na floresta os olhos treinados identificam uma imensidão de tons de verde, o povo era um, mas eram muitos.
Seus reinos se estenderam desde a Terra do Fogo até além do Vale de Upar, muitos deles foram construídos com ouro e prata abundantes aqui, erguidos em homenagem e honra a deuses esquecidos ou transformados. Foram reinos gloriosos e quase celestes onde muitos valores nobres nasceram foram cultivados e levados adiante.
Tudo isso foi muito antes do grande Dilúvio que os Guaranis também contam em suas lendas, o mesmo que varreu da face da terra esses e muitos outros povos.
Dos donos desse tempo restaram apenas alguns descendentes que por muitas razões colocaram abaixo todas as construções e ornamentos, eles escolheram uma vida nova não mais falando ou pensando sobre aqueles dias antes da água brotar do solo e cair do céu interminavelmente.
Deixaram que naturalmente todas as lembranças daquela época caíssem no esquecimento das gerações futuras, foi uma época de glória mas também de um pesar grande, eles perderam seu paraíso.
Essa época e povo permaneceram esquecidos e escondidos no passado, seus registros não existem mais senão com os únicos que permanecem desde esses tempos, como o sol que está acima de nós, a lua que era adorada por muitos deles e os ventos que sopraram vida naquela época.
E foi um desses ventos, Aurambé, quem soprou suas palavras através de bambuzais e juncos, formou nas nuvens Relâmpagos que faiscaram no céu mostrando imagens e memórias de tudo isso que ele me desejava contar, foi esse vento que me mostrou isso, fazendo com que pela primeira vez as glórias e histórias desse tempo pudessem ser contadas.
Seu segundo e secreto nome permanecerá oculto, pois apenas com ele Aurambé pode ser chamado e por enquanto ele não deseja ser chamado a todo lugar em qualquer instante: Há muito trabalho a ser feito, muito a ser contado e registrado!
Seja bem vindo!




















[...] Fruto do texto anterior em soma com um texto realmente inspirado escrito ontem, nasceu a nova Introdução a Aurambé. Pessoalmente achei o texto muito bonito e [...]