
Carneiro branco com rosto com olhos azuis
Eis-me de volta às terras da Pérola do Atlântico.
O caminho percorrido anualmente deixa suas marcas em lugares invisíveis aos olhos do profano, é um caminho que tenho a felicidade de não percorrer sozinho mesmo que meus passos sejam dados em terra de ninguém. O epicentro das atividades do espírito e do corpo é o objetivo de tantas vidas com a qual tenho contato, em uma época onde sonhar custa caro, e desejar é muito mais interessante que “intentar” me volto à sabedoria dos antigos sábios da terra.
Terra, terra e terra. Repetir essas palavras em tão poucas linhas não caracteriza uma de minhas falhas quanto à composição dos textos, caracteriza de fato o apreço que tenho por esse elemento e ambiente, apreço esse que se espalha pelos longos anos de uma minuta anual a ser cobrada de maneira justa e perfeita quando as estrelas estão devidamente alinhadas, quando o homem é julgado e executado, executa o milagre enquanto nutre a terra com seu sangue.
Mais um ano, mais uma peregrinação no campo sanguíneo onde a cruz e o forcado tomam o juramento e quebram o juramento, onde o intercessor com cara de sapo sorri o sorriso reservado aos poucos e bem amados. Cada passo dado em direção a esse objetivo é parte de um grande plano onde os ditames são feitos pela escolha de amor verdadeiro e honesto.
Tantas são as revelações contidas em um pequeno punhado de terra, ou areia do tempo, que escolhemos vestir nossas máscaras verdadeiras, aquelas que demonstram quem e o que verdadeiramente somos, apenas para nos despir delas unindo-nos aos ancestrais vislumbrando os caminhos do céu. Não se engane ao mirar os pontos distantes no céu e pensar que eles não reverberam na terra devido à sua imensa distância.
É com um salto de fé que transpomos essa distância, com esse mesmo salto, poeticamente energizado, vencemos as barreiras e obstáculos. Encantar um cavalo é fácil quando se sabe as palavras, mas pode a sua imensa capacidade perder-se em si mesmo e em sua miríade de possibilidades? O que resta quando cada entranha, braço e pedaço são expostos no chão? O que sobra quando cada pedaço de seu ser é colocado à disposição dos mortos da terra?
Você é capaz de identificar qual partícula ali é a indivisível partícula de si?
E assim a identificação é mútua, remontando palavras antigas e sabedorias que atravessam a pedra e a carne, como uma lança flamejante lançada no segredo da noite, como uma foice desferindo seu golpe nu e cru na carne dos que partilham o mesmo pensamento e a mesma nau que ruma à infinitude da alma.
Apenas onde os mundos se encontram é possível vislumbrar o Dragão em sua plenitude, e apenas nesse ponto de poder secreto e inviolável é que o incenso é queimado, o sangue aspergido e a carne da terra manifesta toda Tua glória.
Mas ouçam, Ó filhos da serpente e do dragão, teu hino que abre o campo dos sonhos e irrompe a morada da vida não é audível por qualquer um. Existem aqueles que sabem.
Poucos querem.
Quantos ousam?
Para então calar!