
Vítima
Mesmo orando meus olhos entreabertos ainda viam a lenta aproximação de meus agressores. Passo a passo, de forma lenta e calculada, a distância entre nós era reduzida. Em suas faces malformadas o cruel e sarcástico sorriso podia ser visto denunciando dor e sofrimento como desejos.
A cada passo da oração meus olhos abriam-se novamente para confirmar meus pedidos e seus resultados, mas a única mudança ali era na distância que nos separava, uma distância curte demais naquele momento.
O peso de meu corpo fazia com que as pequenas pedras daquele chão rasgassem a pele de meus joelhos, a pouca carne que ali restava vertia sangue como se meu medo fizesse com que meus joelhos suassem, e a cada verso ou palavra o peso apenas parecia aumentar.
Quando minha oração não mais era feita de chamados, pedidos ou agradecimentos; quando ela apenas poderia ser descrita como pura súplica em um mortificante desespero que ameaçava minha existência foi que percebi:
Embora tudo ali se tratasse de uma questão de fé, não seria apenas pela fé que minhas ameaças tombariam, não seria apenas pelas orações que meus algozes recuariam e me deixariam em paz, nem a fé ou as orações me salvariam ali.
E a verdade que pode ser dita daquele momento é a de que encontrei a situação que separa os perdidos dos escolhidos, que separa os homens dos verdadeiramente santos, o momento no qual apenas duas opções me restaram: Fé ou descrença.
A fé não eliminou meus opressores, a fé sequer me fizera sumir dali por milagre, a descrença por um momento me pareceu tão doce que um breve grito espraguejando profanações teria sido alívio, uma promessa de paz e tranqüilidade, no entanto não era por alívio que outrora eu havia clamado.
Iluminação.
A recebi quando há menos de três passos estavam os opressores, a iluminação foi tamanha que se atuasse ali fisicamente poderia ter feito com que todos presentes ficassem cegos naquele momento, mas apenas eu a sentia. Apenas em mim ela fez-se presente como um ponto de total tranqüilidade em um oceano de caos, dando o esclarecimento e entendimento pedido em minha oração.
Uma pancada cega e seca atingiu meu coração, minha respiração que cessara durante os segundos de iluminação reaparecera com uma força puramente animal, meu corpo parecia ter sido atingido por milhares de raios celestiais e meus joelhos e perna quebrada que estavam em frangalhos foram curados pela força de vontade em Fé.
Embora a fé não houvesse me livrado da ameaça, apenas na fé e através dela foi que encontrei a força dos deuses, eu me ergui envolto em uma chama azulada e sabia com toda certeza que aquilo era fé, e meus deuses estavam ali, eles jamais me abandonariam.
Carrasco
Mas vejam ali o pobre com a perna quebrada, sequer correr de nós será possível, a caçada repentinamente ficou tão sem graça.
Meus camaradas querem pular em seu pescoço e finalizar isso rápido, mas de que adiantaria isso se feito de forma tão rápida?
Lembro bem das ordens de meu senhor, de que fosse demorado como a metamorfose de uma lagarta, mas interrompida antes do belo e derradeiro momento.
Não matá-lo, essa foi a ordem, mas meus camaradas têm uma paixão pelo derramamento de sangue que será difícil segurá-los por mais tempo.
Quebrá-lo é nosso dever, começamos por uma perna para que ele sentisse a dor física, agora temos sua mente, seu espírito e por fim também sua fé.
Principalmente a fé, o bom senhor foi claro sobre quebrar sua fé, amedrontá-lo até que sozinho tivesse de se ajoelhar e implorar clemência com a face em puro temor.
Matar seus amigos foi fácil, com ele temos um grande prazer meio a um imenso dever, e segurar estes cães furiosos é uma diversão à parte.
O tolo ainda não está desesperado, apenas em temor. Passos leves e um sorriso sádico farão as honras, o velho não tem muito por onde fugir dessa visão, é implacável o que ele têm em face.
Não devo esquecer as recomendações feitas, choro, gritos, pedidos de misericórdia, blasfêmia e maldições professadas, todos esses elementos devem surgir até que o deixemos ao sabor de uma morte lenta e natural.
Mas o bom senhor tem planos, devemos retornar rapidamente após a tarefa, o próprio Senhor quer causar os últimos atos, crueldade maior eu não conheço, mas estará vivo esse fraco quando meu bom mestre chegar?
Não perguntar, essa foi minha instrução, urrar e babar freneticamente, essa foi a clara instrução de meus camaradas. O bom senhor pediu que não fosse morto, mas meus bons companheiros sabem arrancar-lhe pedaços sem que isso custe-lhe a vida, tudo ficará tão fácil quando por fim o homem desistir de sua fé.
Eis que nossos passos nos trazem perto a ele, vejo um lampejo de verdadeira fúria que some tão rápido como veio, segue-se um olhar de desespero, e tão pouco falta que me sinto como um cão prestes a saciar sua doentia fome.
Os olhos fechados são o sinal que eu esperava. Apertamos suavemente o passo o soluçar já pode ser ouvido, abrimos nossos sorrisos e vemos o rio de lágrimas que escorrem de seu rosto, os tremores de seu corpo em total pânico, e todo esse sabor não cessa tão fácil.
Um bom camarada perde o controle, tenho de sacrificá-lo como a um cão antes que os outros sigam seu exemplo, o sangue chega até o velho e o sacrifício funciona melhor que o esperado.
Vazio!
Esse é o sinal da dor e do momento crucial de que nada mais poderá salvá-lo, pois quebramos suas pernas e restou-lhe sua mente, quebramos sua mente e restou-lhe seu orgulho, ao quebrarmos seu orgulho restou-lhe seu espírito, ao quebrarmos seu espírito por fim restou-lhe apenas a fé, mas o vazio de agora é claro: O fraco tropeçou de vez no abismo do desespero.
Apenas precisamos fazer isso durar até que o velho por fim se esgote.
Uma longa noite e um longo prazer, tudo isso com a certeza…
NÃO, mas o que ele faz se levantando, e que olhar é esse que vejo?
NÃO, não está certo, dobramos esse homem até quebrá-lo, amassamos seu orgulho e suas esperanças. Há pouco ele esperneava tentando retomar o controle de seu corpo, nadamais era que um fantoche pronto para te suas cordas cortadas e jogado fora.
Nós fizemos o melhor e mais cruel serviço, quebramos tudo que o fazia existir, inclusive quebramos sua fé. Sua poderosa e pura fé… não quebramos?
Testemunha
Vida e morte que tanto se entrelaçam nesse campo pedregoso.
Uma vítima, agressores um carrasco e uma testemunha.
O pobre de joelhos já estava morto, se os homens o tivessem atacado a essa hora apenas um rastro de sangue e uma voz silenciada restariam, mas o que acontecerá agora?
Eles dobraram demais um homem de verdadeira fé, outro ali teria facilmente sucumbido, amaldiçoado seus deuses. Teria lançado ao ar sua fé professada, abraçaria a fé de seus opressores… mas agora ele se ergue.
O ex-moribundo se ergue não mais sendo o simples crente, não mais sendo um fiel qualquer, ele agora representa em terra seus deuses, seu poder e sua fé.
A matéria da vida é delicada demais para ser martelada como estes brutos fizeram, mas a matéria da vítima jamais transpareceu esconder ali tamanho poder, jamais transpareceu ali ser capaz de tamanho ato.
Eu diria que é uma vingança de seus deuses, mas aquilo que brota em azul escaldante é pura fé. A pura fé de ágüem que foi colocado diante das maiores provações de sua vida e verdadeiramente permaneceu uno com sua fé.
Não mais vejo um velho, uma vítima, não mais vejo um homem ou um fiel, vejo unicamente o final de uma existência humana e o nascimento de um Avatar, um princípio divino se desdobra ali.
Quem diria que apertar tanto as cordas da vida de alguém resultaria nisso?
É tarde demais, apenas a vítima e o executor permanecem, e a vítima outrora fora o carrasco. Tamanha vicissitude da vida se deve aos planos de algum tolo e cruel senhor.
O homem jamais abandonou sua bandeira, ele se tornou algo além de homem, descobriu sua divindade inata, aquela que carregamos todos sem sequer saber.
Fagulha primordial que alguns deuses querem despertar em seus fiéis, mas essa mesma fagulha é a que outros deuses desejam anular, inibir e consumir.
Agora que os papais se inverteram devo me afastar, até minha inocente vida nesse conflito corre grande perigo.
O antigo homem ainda está no controle de seu novo estado, mas isso não deve durar muito, logo virá a exaustão e todo esse poder emanado irá explodir.
Assim será até que ele modele seu corpo, que entenda o que é…
O pobre que ordenou isso jamais pagará o bastante, seu arrependimento o acompanhará pela eternidade por ter despertado tamanho poder dormente.
Sobro como a testemunha do nascimento de um futuro deus, uma testemunha da divindade inerente do homem, testemunha da fé que elevou uma vítima moribunda ao estado de sua graciosa plenitude.
Mesmo agora de longe aquele homem e seu tamanho poder podem ser sentidos. Mas porque o chamo de homem quando na realidade ele foi alem disso?
Espero testemunhar o épico desta entidade, tamanho fenômeno somente tem proximidade em meu conhecimento com os primeiros segundos de uma nova borboleta.
Agora alce seu vôo, mas acautela-te, pois ainda não secastes tuas asas para aprender a voar.


