Gehenah – Os Sete Demônios
agosto 9, 2011 em blog, destaque

Que nome estranho.
Provavelmente é o pensamento da maioria das pessoas que vão abrir esse post e dar de cara com a figura acima.
Em uma breve leitura apenas os que conhecerem as informações de composição dessa imagem poderão entender algo. Gehenah é uma transliteração alternativa para a palavra que em português é normalmente traduzida por “Geena“. O que é Geena? Vamos fazer uma pequena consulta à Wikipedia:
Gehenna (Grego γέεννα), Gehinnom (Hebraico Rabínico: גהנום/גהנם) e Yiddish Gehinnam, são termos derivados de um local fora da antiga Jerusalém conhecido na Bíblia dos Hebreus como o Vale do Filho de Hinnom (em inglês Valley of the Son of Hinnom) (Hebraico: גֵיא בֶן־הִנֹּם or גיא בן-הינום); um dos dois principais vales circundando a Velha cidade.
* Traduzido do original em http://en.wikipedia.org/wiki/Gehenna
Ao menos essa é a etimologia oficial desse nome. No entanto etimologia não significa semântica, ou ainda, o uso atual, corrente e consagrado da palavra em questão.
Nesse segundo campo, o da etimologia, quem se interessar pelo termo encontrará a correlação da palavra Geena com o Hades (enquanto inferno da cristandade) e é justamente a esse significado que deverá ser dada atenção na interpretação do que realmente significa a imagem acima.
Gehenah é o nome de um mundo literário. Um mundo literário que se iniciou como uma escada enorme com apenas sete degraus, mas inúmeras trilhas para que cada um deles pudesse ser confrontado e vencido.
Cada degrau desses representa um dos Sete contos que formam a antologia VII Demônios da Editora Estronho, uma série volumes que tem como temática os sete pecados capitais e os sete demônios atribuídos tradicionalmente a cada um desses pecados (sim, a palavra sete será repetida nesse texto várias vezes).
O motivo para que esse post seja escrito, mesmo que a maioria das pessoas que o encontrem não o leiam, é que enfim foi divulgado o último resultado que eu aguardava, dando fim a essa escada cujos degraus significavam: conceber, escrever, revisar, enviar para betas, receber feedback, considerar as alterações, revisar, enviar para seleção, aguardar resultados…
Sim, escrever cansa e é 90% transpiração, como já foi dito por alguém. Os 10% restantes são de inspiração, necessários e bem importantes. Mas esse é apenas o gatilho para que algo aconteça. Quem depende apenas de inspiração para escrever dificilmente conclui alguma coisa pois é necessário unir técnica, disciplina, objetividade, pesquisa, insistência e persistência.
Não nego que essa jornada foi egocêntrica, já que desde o início EU desejei participar de cada um dos sete volumes expondo minha vaidade literária em cada um dos pecados e demônios que nomeavam esses volumes.
Como é digno de vaidade, os sete contos foram concebidos para que funcionassem juntos mas que, também, pudessem operar individualmente sem que fosse necessário o pré-conhecimento de algum para entender outro.
Comparo cada um desses trabalhos a uma jóia que tive de lapidar com cuidado e esmero, todas elas por fim fazendo parte de uma coroa vaidosa que não repousará sobre minha cabeça, mas sim espalhada pelas mentes e interesses dos que vierem a ler.
Não foi fácil e em momento algum eu tive a sensação de que já tinha conquistado esse desafio, pelo contrário, tive de enfrentar as complicações de escrever sete contos para uma série de antologia com temas tão próximos sem que eles caíssem em lugar comum, sem que os personagens fossem todos a mesma voz e expressão, ou mesmo que os detalhes de cada conto se tornassem redundantes.
Como os contos não eram aleatórios, escritos com a mente focada apenas neles, mas sim em um mundo que não foi previamente criado com cuidado e a minuciosidade de um worldbuilding decente, cada um deles foi uma aula sobre esse mundo, sobre a história dele e sobre as condições dos personagens. O aluno? Eu mesmo, junto ao papel de mitógrafo, explorador, sumo-sacerdote e, porquê não dizer, deus dessa terra de limites imaginários.
E então voltamos novamente à imagem acima, onde o termo Gehenah que nomeia esse mundo já foi levemente explicado, mas ainda guarda certos segredos e particularidades.
Passemos então para a imagem de fundo, que é uma gravura medieval relacionada à feitiçaria e bruxaria. Nela temos três personagens, dois humanos e um demônio. E é justamente isso que é Gehenah, um mundo onde os demônios trafegam livremente e convivem com humanos, pacificamente ou não, da mesma forma que árabes, judeus, cristãos, homens, mulheres, gays, heterossexuais, cães e gatos tem de conviver. Relacionamentos complicados.
Tal gravura tem ar antigo devido a sua origem e, esse detalhe, será importante em breve.
O que temos a seguir é a cor do logo em si, como a imagem de um espaço em chamas, ou mesmo um espaço cuja matiz fosse vermelha, essa cor remete ao clichê do inferno em chamas. Não pelo mundo estar em chamas, mas sim pelo conceito do fogo que queima ardentemente nas relações desse mundo. Juntem a isso o fato do logo ter uma margem branca (a bondade?), envolvida por uma margem negra (a maldade?), e começamos a desvendar o que é de fato Gehenah: Um Inferno na Terra.
E por fim temos as “rasuras” e desgastes da imagem, não apenas como elemento visual para que o logo em questão flutue bem em qualquer lugar. Os pincéis escolhidos para esse efeito refletem um pouco da correlação da natureza literária desse mundo com a correlação artística. São pincéis (ou brushes, como os viciados em Photoshop bem conhecem) de temática “grunge”, uma temática suja, destrutiva, erodida e frequentemente niilista. O conceito literário que se aproxima disso é o tão falado “New Weird”.
E com essa verborragia de conceitos misturados em um caldeirão, o mundo de Gehenah se expõe: É um mundo onde tudo deu errado, onde o apocalipse já aconteceu e o que restou do mundo não tem boas histórias para contar. A vida pode ser dura dependendo de qual senhor você sirva.
Esses conceitos são importantes para quem quiser desvendar o mundo proposto nos seguintes contos que serão publicados pela Editora Estronho na Antologia VII Demônios:
- Inveja com o conto O obsessor no caminho ígneo do Bodisatva
- Gula com o conto Banquete de Maná e a oração à unificação
- Luxúria com o conto Cutelo de Prata e a questão de Dandara
- Soberba com o conto Axis Mundi, a herança de Simha
- Preguiça com o conto Bastardos, duas gatas e um V8 fumegante
- Avareza com o conto Segredos sob a égide de Mercúrio
- Ira com o conto Lady Hiroshima, a Gênese
O mundo em questão foge bastante do que quem está acostumado a me ler já encontrou, nele não foi feito o tal worldbuilding, o processo que cria material de apoio para que o autor possa escrever com mais tranquilidade sua história, o glossário de termos e localidades que facilita o processo e evita que confusões ocorram. E não foi algo de bater no peito e dizer “sou macho, não preciso dessa porra”, mas sim um experimento que priorizava o auto-conhecimento deste autor.

Foi um caminho árduo que pode ser revisitado aqui mesmo no Axis Draco em cada um de seus passos, um processo de aprendizado e esmero de talento e habilidade e um caminho de tapas na cara fazendo com que o verdadeiro sentido da palavra humildade fosse sentido, compreendido e por fim, assimilado.
O mundo de Gehenah é pós-apocalíptico e conta com inúmeros elementos distópicos, abissais e “new weird” em sua mistura de escatologia e mitologia cristã, terrores cósmicos, mitologia hindu, nórdica, celta, druidismo, bruxaria, espiritismo… e tantos outros elementos que vão desde cultura popular, desastres naturais ou causados pelo homem, tecnologia e bizarrias mil, que enumerá-los aqui alongaria o post mais do que o devido.
A concepção desse mundo foi orgânica, eu mesmo não conhecia a história dele profundamente quando comecei a escrever, expliquei um pouco sobre isso aqui, mas um detalhe importante apenas poucos (ou nem tão poucos) sabem sobre esse mundo: Ele não tinha nome.
Até que fosse feito o último anúncio e meu êxito fosse confirmado, eu decidi que esse mundo não teria nome, estaria apenas detalhado nos contos explicados e sequer teria material de apoio. E como foi esse o caso, tudo se transformou e aconteceu.
Gehenah nasce como um mundo literário feito para jovens-adultos e adultos, com histórias sobre a condição humana e podridões caracterizadas primariamente como a maior ameaça, os Sete Gregoraquinianos. E quem são eles? Essa é uma resposta que apenas aqueles que investigarem esse mundo poderão responder.
Enfim posso dizer que essa jornada acabou. Mas outras muitas surgiram com isso e faço esse o momento no qual agradeço a cada um dos Beta-Readers dos sete contos, ao editor M. D. Amado e à editora Celly Borges, ambos editores da Estronho e a muitos amigos que tiveram paciência de me ouvir falar tanto desse mundo sem nome, com conceitos confusos que muitas vezes não faziam sentido sequer para seu criador.
É um agradecimento feito de coração, com a sinceridade que também recebi nas críticas e revisões. É algo que eu certamente não teria conseguido realizar sozinho.
Agora nos resta apenas aguardar que os volumes comecem a ser lançados, que os leitores passeiem pelas linhas das histórias e deem suas opiniões. O que não falta é assunto para escrever quanto a Gehenah, seus personagens e locais, suas histórias e revoluções míticas e religiosas, e toda outra sorte de características que tornam esse mundo único.
p.s. Todos os anéis apresentados aqui são da coleção “The Seven Deadly Sins” de autoria de Stephen Webster.





















Os contos criados por esse maluco são incrivelmente mágicos… mágicos no sentido de, mesmo tendo que ler trocentos contos para a seleção, mesmo tendo que cuidar de vários lançamentos que estavam em andamento e ainda do meu trabalho principal, na outra empresa que tenho… eu consegui viajar para dentro das histórias. Consegui ver o mundo criado pelo Ghad. Talvez não com tantos detalhes, por causa da correria que já citei, mas consegui ver nesses contos, o objetivo inicial da antologia. É como se o Ghad tivesse participado da ideia inicial e tivesse 'visto' o que exatamente nós queríamos fazer.
Talvez os volumes demorem um pouco para sair, pois estamos trabalhando para que fiquem à altura desses e de todos os contos enviados. Queremos o melhor para esta série e estamos preparando algumas novidades, além da diagramação já conhecida da Estronho, que não segue padrões e sim inspirações.
Parabéns, nego velho!
Agradecendo ao comentário, a paciência e a disposição. Realmente eu mesmo senti que tinha participado da ideia inicial, foi engraçado como o processo criativo de cada conto rolou e como os resultados finais puderam ser conquistados.
Aguardamos esse lançamento com as novidades que vierem
Parabéns, estarei no volume 3 com você… =) ótimo texto … com certeza toda a transpiração será bem recebida e muitos frutos virão!
Ps.: Adorei os anéis ;D hihi
Olá Adriana. Obrigado pelo comentário. Toda transpiração se transforma em algo bom quando temos dedicação e um foco definido.
Hahaha, lindos os anéis né? Encontrei um dia desses e guardei a imagem para o momento certo!
bjs e, mais uma vez, obrigado!
[...] publicado na revista R.I.P. #7 da Editora Estronho com um artigo falando sobre o Worldbuilding de Gehenah e enfim consegui resolver os problemas da faculdade, só falta agora fazer as provas da segunda [...]
[...] você leu alguma coisa do que eu escrevi nos últimos tempos, principalmente se for ambientada em Gehenah, recomendo encarar, ver se é o seu tipo de série e se o humor que ela contém não consegue [...]