O Cão
agosto 29, 2009 em contos
Estrelas faiscantes despontavam como cascata d’água em um céu soturno.
Ah um cão, um simples e comum cão: Com apenas isso eu desejaria sonhar.
Um cão simples seria fácil de compreender perante o código lógico e imberbe de minha mente inquieta e de meu espírito consternado. Mesmo que não fosse fácil como parece descrito aqui, tenho certeza que seria mais fácil do que sonhar com um cão não usual.
Em duas patas caminhava o cão em questão, de pelagem negra e desbotada, em alguns pontos era claro o desbotado amarronzado de um cão de alimentação precária.
Não parecia muito distante da realidade, mas um de seus olhos era branco, aquele tom de quem está olhando rumo ao vazio. Não um branco sadio, ou ainda um intrigante e elegante, era um branco doente e destruído, de um cão ferido pelos longos e torturosos anos.
Ou seriam eras?
O local onde este cão caminhava era simples ao primeiro relance, topo de uma montanha (ou algo assim), mas um topo circular, como se na rocha bruta e cinzenta do qual era formado, havia sido esculpido por mãos artísticas e poderosas, tamanha a perfeição daquele círculo. Não era humano.
Doente! Sim, o cão era doente e isso podia ser visto claramente em seu braço esquerdo e em sua língua.
O braço esquerdo parecia largado sem osso algum, humano e sem pelo, aquele membro parecia estar mole como se a vitalidade lhe fosse negada desde sempre, na verdade parecia um pedaço de tecido morto sem que os vermes sequer notassem.
E a língua, que era longa e alcançava o chão, por demasiado era estranha, tal qual uma serpente morta, figurava naquele ser totalmente sem couro ou personalidade, apenas carne e músculos ali, expostos.
Aquela língua se arrastava pelo chão sempre pelo meio de suas pernas, enquanto aquele cão tropeçava passo a passo em círculos, não parando por mais de dois segundos em cada passada. A julgar pelo que meus sentidos me informaram, aquele ser canídeo não possuía altura maior que a de um ser humano, talvez tivesse por cerca de um metro e setenta de altura, o que já seria assaz grande para um cão.
Mesmo com a atração pela estranheza daquele ser, que fora nomeado um cão, meus olhos foram levados para além, muito além daquele topo de montanha plano. Foram levados de volta para o céu, onde em quadros haveria uma bela lua se noite, ou um flamejante sol se dia.
Não mais pude ver aqueles eternos e infinitos pontos brancos no azul celeste, em se lugar estavam símbolos estranhos e sagrados demais de uma questão profana outrora obscura. Eram sol, lua e estrelas, mas não como estamos habituados a ver.
Um triângulo encabeçava a figura, era o sol, um sol triangular e emoldurado por um tom escuro, com símbolos tacanhos e conscritos rabiscados por toda extensão da moldura, e do centro dele, brilhava uma luz vermelha e amarela, mas não cheios de vida, e sim doentes, como estava aquele cão. Ao menos foi assim que interpretei aqueles sinais dos momentos.
Abaixo do sol estava uma lua de prata, ela na verdade parecia um par de chifres de um boi oculto no véu da noite, pois suas duas pontas apontavam para o sol acima, e ao lado do sol, percebi então, estavam duas estrelas vermelhas, verdes, azuis… Enfim, eram apenas duas estrelas, mas suas cores alternavam, e a miríade de cores que alcançavam, estavam além de minha capacidade descritiva.
Aquele cenário era realmente estranho, nuvens se posicionaram no céu, que por mais estranho que fosse, revelou-se então azul e cinza escuro, como se houvesse uma eterna tarde nublada dando um adeus à noite anterior. Não havia luz suficiente para o que os olhos humanos estão acostumados.
Com a imagem do cão andando em círculos, novamente minha atenção se ateve ao círculo esculpido em rocha pura, nela também pude ver muitas inscrições talhadas de maneira suave a serem perceptíveis de maneira exclusiva: Apenas sob um determinado ângulo e com a incidência da luz certa.
Minha mente me bombardeava, como sempre, com fatos que de alguma forma eu parecia saber, sem que houvesse alguma razão para tal. Podia constar em minha sabedoria e cabedal um códice eterno daquele cenário irrefreavelmente surreal.
Objetos no centro daquele círculo gritaram de modo visual e chamaram minha atenção, minha mente novamente transformou aquilo em algo que já sabia, eram “Objetos do Cão”.
Os objetos eram estranhos até enquanto a natureza do momento dizia que estavam no lugar certo: O primeiro deles era um falo de cão seco, como se houvesse sido cirurgicamente retirado de um animal; Logo ao lado repousava uma jóia marrom que era claramente o coração do cão (ou minha mente assim disse); Havia também uma foice enferrujada com uma corda de palha em sua ponta e um chifre de bode adornado de ouro, daqueles em que antigamente bebiam-se líquidos sagrados; Por fim, em sua boca havia uma flor-de-lis de metal branco.
Dois outros dois objetos apareceram, uma bacia de aço escovado, cheia de água no qual pude ver o reflexo daqueles astros estranhos e uma flor: Essa flor possuía pétalas em forma de lâminas vermelhas e ao centro dela havia um buraco cercado por pólen de cor rosa orgânico, aquela flor parecia uma flor sagrada e eu sabia o nome dela de maneira mágica, aquela flor era chamada de “A Vagina de Deus”.
Quando vi novamente o reflexo dos astros na bacia de aço percebi a transformação, o sol tornara-se prata, a lua negra, as estrelas sangrentas e o céu e as nuvens haviam escurecido de uma forma que a luz presente estava sendo utilizada de uma forma mais hábil.
Por fim, quando esse fato estranho me apareceu, eu não mais estava tão perto da cena e via tudo em um quadro a minha frente, não mais havia o cão ali, estavam os astros, aquele pedaço de rocha esculpido como se fosse o topo de um cânion remoto, e no céu havia a inscrição em prata branca: “ZAZAS ZAZAS NASATANADA ZAZAS”.
Desejei e então novamente estava ali, aquele cão magrelo e feio, doente e em condições deploráveis. Sua boca sangrava e sua língua parecia estar secando, ele olhou para o chão, onde outrora estavam os objetos, mas apenas o falo restava ali, dirigiu suas mãos a ele e com um movimento rápido, porém doloroso e sofrido, ele inseriu ele no local onde haveria um em qualquer macho humano.
Quando vi aquilo, no mesmo momento me lembrei de filmagens de flores desabrochando em alta velocidade como se em segundos estivesse pronto, e ali pude ver uma transformação magistral: Aquele cão doente se transformara numa besta, suas pernas, assim como cada pedaço de seu corpo, se tornaram fortes e claramente ele não mais tinha a altura de um ser humano.
O Cão possuía penas e, por mais estranho que possa parecer, eram penas luminescentes. Em sua forma eram semelhantes às de um pavão garboso e estavam dispostas a parecer um cocar na forma de um moicano que descia até a base de sua cauda e lá, findavam como um cocar de guerra, em azul e verde que vibravam como se houvesse radiação presente.
Do chão à frente do cão levantou outro ser, semelhante a ele, mas de cor cinza e visivelmente feminino com seus três pares de seios fartos e viris a mostra. Seus braços eram adornados por penas também, mas não aquelas penas belas e magníficas, eram simples e traçavam horizontalmente suas costas na linha dos braços, talvez como asas que não tivessem sido desenvolvidas em sua plenitude.
Por instinto ou natureza, as duas criaturas começaram a copular naquele platô de rocha cinzenta, a cópula em momentos parecia uma briga entre ferozes inimigos, pois trocaram garradas animalescas retalhando a carne um do outro.
Mordidas que trituravam os ossos era lugar-comum, sangue brotava e havia apenas prazer ali estampado na face daqueles monstros que, embora bestiais, ainda lembravam cães: Ou talvez a esse ponto fossem lobos.
Perdi a noção do tempo com as imagens daquele intercurso e então quando restabeleci um vínculo de domínio e entendimento sobre aquela visão, o sol triangular estava abrindo seu olho, acordando e com ele chamas pareciam ser lançadas, como se uma cortina que protegia a tudo aquilo estivesse sendo removida. As estrelas e a lua fecharam-se por completo, como se fossem outros olhos abertos, olhos dos deuses me pareceram.
Com o banho proporcionado pelo despertar do sol, tudo passou a se tornar amarelo fogo, quando aquela luz destruidora tocou as bestas, elas foram derretidas e antes que fossem totalmente destruídas, pude ver o êxtase em suas faces. Ambas foram cremadas e apenas algo pequeno sobrou.
Assemelhava-se a uma bolsa orgânica de coloração entre o vermelho do sangue e o marrom da terra, movia-se como se algo estivesse ali dentro, minha visão era apenas a do espectador e pude ver aquela bolsa que era maior que os dois seres sendo aberta de dentro para fora, por garras negras e perfeitas.
O que se revelou ali ao ser descrito em adjetivos seria blasé de tão incognoscível que seria, como se o topo de uma emoção fosse apenas a indiferença, um ser que era a união daqueles dois estava ali. Ele era monstruosamente belo, sim belo pois era um predador perfeito.
Suas penas, como as do lobo, desciam pelas suas costas, belas e luminescentes, mas abaixavam-se como por sua vontade, e perdiam assim a luminescência.
Não existiam pelos em seu tórax, belo e firme como azeviche ou aço negro precisamente trabalhado e esculpido com toda a paciência que a imortalidade podia dar a alguém. Olhei para suas pernas e me senti estranho, pois ele era visivelmente um predador, mas suas pernas eram como as de um bode, possuíam uma pelagem negra e lustrosa. Por um momento então a visão subiu ao rosto da fera e ele se revelou humano, com um sorriso lascivo e perturbador.
Acometeu-me que seria aquilo o nascimento de uma criatura diferente, não homem ou fera, não deus ou animal, algo que integrava em si de uma forma inexorável a essência de tudo que se aproximava da perfeição.
Seu sorriso perturbador me assustou, apenas confusão e devaneios com imagens em um torvelinho me atacavam, um pandemônio em ação com apenas algumas constantes.
Os glifos me foram revelados um a um como a contagem inicial de um filme, nesses glifos percebi que alguns eram sigilos como os de Austin Osman Spare, claramente letras modificadas, e outros tantos foram revelados em uma seqüência aparentemente interminável.
Esses outros glifos eram viscerais e orgânicos, como se fossem traçados em formas vivas que pulsavam com a mesma sensação causada pelo sorriso da criatura quando então parecia que minha mente estava a beira de um colapso uma terceira classe de glifos surgiu: Cheios de detalhes que terminavam em fios e linhas, esses eram soltos e carregavam uma música em sua essência.
Ao perceber então o que a criatura era, em sua eterna liberdade de ir e vir, escolher e decidir, meu coração parou em súbito: o Anti-Deus se manifestava.
Continua em: Terra Pura





















Verdadeiro processo alquimico, ao menos como eu compreendo x}
pUrfeKt!!!
hugs!!!
Vocabulário perfeito, adamantino, porém fluido… meu, pra mim este texto e mais dois outros são praticamente liturgicos, e esta versão está mais do que perfeita, talvez no conceito apresentado seria anti-perfeita (?)… quando eu leio realizo instantaneamente em minha mente e o corpo inteiro sente, voce eh FODA Ghad! Eu gosto de Spare e de Chumbley, esses dois em particular, mas o que você escreve passa o que qualquer desenho jamais poderia expressar ou transmitir por si só, devia fazer um filme! luv luv luv this version =D~
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