O nascimento de um novo Dragão

Ou
Ergue-se de um caldeirão sulfuroso, a RPGCON

Nesse último fim de semana, nos dias 4 e 5 de julho de 2009, tivemos a RPGCON que aconteceu no Colégio Notre Dame, antes porém de chegarmos a essa data e a esse evento é interessante percorrermos rapidamente um resumo do caminho trilhado pelo RPG no Brasil.

Ao que consta de maneira “extra-oficial” o RPG surgiu no Brasil na década de 80, com dificuldades e solavancos através da saudosa Geração Xerox, a partir desse contato com a arte de interpretação levada de maneira amistosa e descompromissada o Brasil teria uma interessante história a ser contada.

Em 1993, precisamente nos dias 5 e 6 de junho acontecia o primeiro Encontro Internacional de RPG, a partir daí chamado de EIRPG, o local desse evento foi nada menos que a Marquise do Parque do Ibirapuera em São Paulo, onde em sua longa extensão além de demonstrar uma força crescente trabalhava certos aspectos que seriam muito importantes nos anos seguintes.

De lá para cá muita coisa aconteceu, tivemos uma febre nos anos 90 quando várias editoras de grande porte apostaram que o RPG seria um mercado fabuloso, mas apostaram suas fichas de forma impensada e em sua maioria desvairadas, e a cada ano o EIRPG era mantido tornando-se então uma tradição pelo qual todos esperavam pelos próximos 365 dias.

Não podemos dizer que o mérito é apenas do EIRPG e de sua idealizadora e realizadora, a editora Devir, pois tivemos também nessa saudosa época outros encontros menores em divulgação mas nem por isso menores em importância.

Alguns desses eventos, como USPCON, Um dia de Aventura (no saudoso e fantasmagórico Shopping Pompéia Nobre), Enésima (sem que houvessem oito anteriores, e chamado carinhosamente de “RPGistas na APAE”) reforçavam que aquela população estava carente de comunicar-se com seus semelhantes, os outros jogadores espalhados não apenas por São Paulo, mas também pelo enorme Brasil.

Guerras e brigas a parte, o EIRPG firmou-se como uma tradição por mais de 10 anos, trazendo sempre um convidado internacional e dando aos autores dos jogos que faziam cada um de nós passarem horas e horas de diversão um rosto, uma personalidade e até mesmo (em alguns casos) uma experiência de jogar “como o jogo fora concebido”.

No ano de 2009 esse legado já estava fragilizado, pela boca do povo rolavam as lendas e mitos dos cinco primeiros encontros, enquanto a comparação com os cinco últimos demonstravam uma decadência visível e impactante.

Muitos apontaram dedos para a maléfica Devir que cobrava preços exorbitantes por livros, mas ainda assim era a única a se manter integralmente no mercado desde os 80’s, e nesse apontamento de dedos e maledições soltas pela internet, talvez tenha nascido ai um dos motivos que fez com que o EIRPG pudesse ser oficialmente cancelado.

Vejam que nos anos 80 e 90 a internet ainda engatinhava, a explosão tida nos 90’s chegarem até a contribuir com o EIRPG, como estandes de Zipmail e algumas outras .com que em muitos casos implodiram devido a falta de estrutura e sonhos “da bolha”.

E qual a importância da Internet nessa história?

Além, é claro, de permitir que essas palavras sejam lidas por vocês (sejam que for), ela permitiu que os jogadores não apenas fizessem pequenos contatos naqueles 3 dias (sendo um reservado para escolas e a introduzir novos jogadores) mas criassem lentamente comunidades e grupos espalhados pelo país, grupos que nasceram e cresceram, alguns morreram e outros tiveram filhotes e restam até hoje.

Durante essa “era de ouro” do RPG no Brasil, surgiu a Dragão Brasil, revista que manteve-se por longo tempo como a referência maior de todos jogadores, odiando ou amando aquele amontoado de papel impresso e colorido (não a princípio) ícones foram formados na cultura que o RPG passou a se tornar no Brasil.

Pode não parecer cronológico citar a Internet antes da Dragão Brasil, mas essa revista (que acompanhei até o número 50) manteve-se por muito tempo como o refúgio dos jogadores e meio de contato para aqueles que não podiam se deslocar anualmente para os Encontros Internacionais ou mesmo para Encontros Regionais Menores, portanto ela merece um destaque em especial.

Eis que a pergunta martela “onde você deseja chegar com isso?” e a resposta não é a das mais agradáveis:

O RPG no Brasil só pode se manter devido a Pioneirismo, Paixão e Comprometimento. Lucros puderam ser partilhados por meia dúzia de gatos pingados (se muit0) mas a realidade do RPG no Brasil é uma: Não dá dinheiro!

Graças a isso, mesmo massivas tentativas de divulgá-lo e massificá-lo se mostraram infrutíferas, pois (atentem-se a esse detalhe) as iniciativas ligadas ao RPG sempre foram privadas e (se houve) patrocínios e facilitação pública ou estadual jamais olharam para esse “fenômeno entre os jovens”.

Ainda seguindo essa pequena lembrança que se propaga na mente desse que vos escreve, é de nota lembrar que o EIRPG era não apenas o ponto de encontro dos jogadores de RPG, mas também daqueles que não tinham onde encontrar outros interessados em animes, e dos tão odiados “Carders” com seus “Magic, Jyhad, Spellfire, Rage” entre muitos e muitos outros.

Esse evento mantinha unida aos trancos e barrancos certa comunidade nacional, e talvez tenha sido uma infelicidade, essa comunidade lentamente sofreu rupturas, derivações e segregações: Mesmo muitas delas sequer terem sido realmente derivadas.

Com a divisão desse mercado, a moda dos Anime e Manga conseguiu estabelecer-se como um exemplo de evento de sucesso, mas poucos desses lembram que antes dependíamos de tardes na Gibiteca Henfil ou de raros encontros em sua maioria informais quando não do Internacional.

Assim chegamos então ao ano de 2009, quando por volta do dia 10 de maio começaram rumores posteriormente confirmados de que não teríamos o EIRPG naquele ano.

Acredito que todos nós conhecemos um ou dois que comemoraram pelos mais diversos motivos, mesmo esses sentiram em algum momento aquele amargo da derrota, pois se as “corporações” são inimigas, ao menos o objetivo comum fez com que a dor sentida se propagasse de maneira invisível e virótica; Uma vez mais, graças a Internet.

O que vemos então? Um cenário desolado onde o ano passaria em branco com eventos ligados diretamente ao RPG, poderíamos então ter em alguns eventos maiores o “cantinho” desse jogo que foi responsável por muitos dos louros colhidos por eventos posteriores, se não estabelecendo um padrão de acerto, indicando os caminhos por onde não persistir.

Muitos órfãos do encontro novamente apontaram seus dedos rancorosos para a Maléfica Devir, sem que olhassem para o panorama completo da situação que envolvia não apenas o ano de 2009, mas todos anos pelo qual este evento foi realizado.

Estes mesmos dedos rancorosos não lembraram que graças a muitas das modernidades e a divisão de interesses, o RPG voltou a ser paixão de uma minoria, e como bem sabemos, a minoria somente pode se esforçar para alcançar seu objetivo.

Falta de patrocínio, disputas de egos, mentalidade puramente capitalista… indiferente dos motivos que levaram a isso, o ano passaria em branco pela primeira vez em 16 anos, mas outros órfãos ao invés de afiar suas garras e destilar seus venenos se uniram para que isso não ocorresse: Nascia a RPGCON.

Feita e divulgada de maneira relâmpago, a RPGCON foi produzida em menos de 70 dias, coisa que normalmente demandava mais de meio ano de negociações, divulgação, preparo e investimento: Mas a que preço?

Vinte reais, este foi o preço cobrado por aqueles que se aventurassem por esse evento novo, feito às pressas e divulgado no boca a boca, blog a blog de maneira informal e corrida. Perdi a conta de quantos vi reclamarem desse valor, de quantos reclamaram de que com esse mesmo valor outros eventos eram produzidos de forma “mais profissional e organizada”.

A esses muitos dei minha palavra de comparecimento, se não por realmente estar integrado à comunidade RPGística, por fazer valer o esforço colossal feito pelos organizadores do evento, e não foi pequena minha surpresa ao ver que realmente funcionou, aquela loucura de impulso deu certo e conseguiu arrebatar inúmeros agradecimentos e parabenizações.

Erros foram vistos e encontrados sim, muitos e alguns até considerados amadores, cito como exemplo a má estrutura alimentícia proporcionada no local que fez muitos esperarem por mais de meia hora para comer um lanche mal-feito e sem gosto.

Seria então correto eu apontar meus dedos e dizer que o evento foi ruim? Dizer que o evento foi mal organizado?

De forma alguma isso seria justo, pois minha ausência nos EIRPG já durava por três anos, eu também estava cansado do mesmo e desejava algo novo e a RPGCON foi a resposta dada a aqueles que compartilhavam esse anseio.

Antes de tentar destruir o que foi construído com muito suor e garra fiz a sugestão, a alguns amigos, que fizessem essa retrospectiva e vissem o que o RPG enfrenta no Brasil.

Relegado a um segundo plano, essa paixão não é vista como cultura por um governo cada vez mais incompetente e corrupto, essa paixão não é vista como edificante e capaz de produzir verdadeiros artistas, é vista como algo marginal e que serve apenas para uma manchete sangrenta ou preenchimento de grade de emissoras jurássicas.

Enquanto temos artistas de massa ganhando milhões do governo para produzirem shows que em quase nada contribuem realmente com a cultura (Lei Rouanet), artistas esses que não precisam desses incentivos, temos a literatura sofrendo constantes perdas e se especializando em auto-ajuda, em temas que servem apenas ao apelo comercial.

Temos esse formador de mentes criativas e analíticas, de profissionais cada vez mais competentes, jogado em uma gaveta que abre-se apenas em tempos de eleição (ou talvez nem nesses momentos).

Talvez então, aqueles que apontaram tantas falhas, defeitos, erros da produção e realização da RPGCON pudessem nesse momento examinar em seu íntimo o que fizeram para que a RPGCON pudesse ser o “evento perfeito” como desejaram, o que fazem dia a dia para permitir que um evento desse porte e importância possa ser produzido com maior esmero e sem falhas.

Certamente a maioria deles vociferaria contra o monitor e mandariam respostas xulas, menosprezariam o resultado desse esforço apenas pelos erros encontrados, calariam suas sugestões e seus esforços que poderiam ajudar a construir um evento melhor.

Aos que não foram, sinto muito por vocês.

Não minto nem tento fazer com que se sintam mal ao dizer que  perderam um excelente evento,  no qual foi perceptível a evolução que tivemos de simples reuniões com mesas espalhadas e dados sendo rolados para palestras e simpósios que abarcaram cultura, produção de jogos, cinema, arte e literatura.

Uma iniciativa como essa, apostei minhas fichas ao propagar e comparecer, e não apenas me orgulho disso como também me sinto satisfeito.

Como disse ao organizador Douglas “D3″ ao término do evento, Eu o agradeço e parabenizo pelo evento, se não por ter sido “ideal” por ter sido concreto, real e verdadeiro. Repito aqui essas palavras para que se em algum momento as línguas malditas puderem de alguma forma atingir esse esforço, possa ser visto que ao menos uma pessoa conseguiu entender ao que o evento se propôs.

Dizer que aguardo ansiosamente pelo próximo ano, pela segunda RPGCON, onde poderemos ver uma organização maior e mais eficiente não chega a ser uma completa verdade: Temo de certa forma que isso não se realize se cada um dos que se sentiram satisfeitos não transmitirem isso aos outros.

Lembrem-se, não temos patrocínio público como um show da Ivete Sangalo, nem mesmo como outro do Caetano, mas nem por isso somos menores na produção de arte e cultura para esse país, e nem por isso devemos nos calar e aceitar uma situação penosa como essa.

Peço a aqueles que conseguirem chegar ao fim desse escrito, meio a erros e repetições, que pensem se devemos nos calar e aceitar o término de uma era.

Peço ainda que divulguem não apenas os erros, mas também as coisas excelentes que tivemos por lá, os momentos que muitos tiveram e que somente se repetirão num possível ano vindouro.

Divulguem e comentem, dêem suas sugestões e críticas construtivas, ajudem a termos outro encontro ainda melhor e que responda a o que cada um de nós queremos, operem de forma poderosa para que aquilo que nos é negado e minimizado ganhe força e possa ser melhor.

Nós merecemos…

- Gabriel Gastaldo

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15 comentários para “O nascimento de um novo Dragão”

  1. Talude disse:

    Falou tudo aqui:
    "Aos que não foram, sinto muito por vocês."

  2. Barata disse:

    E eu n fui…
    Pelo visto foi bom…
    E a velha guarda? Compareceu/;

    • Ghad Arddhu disse:

      Foi sim cara, pode acreditar que foi, para que eu me movesse a escrever esse post tenha certeza que foi muito bom.

      O D3 ta de parabéns, ele e a equipe toda de organização, dá pra viajar um pouco se pensar como seria com uma verba bacana e um público maior.

      De velha guarda eu vi dois ou três moscando por lá e acho que em um ou dos momentos se muito…

  3. Tsu disse:

    o evento foi ótimo, fui principalmente pela galera do encontro de blogs

  4. Daniel Anand disse:

    Muito bom esse post. Resumiu bem a história dos maiores encontros de RPG do Brasil, e passou meu sentimento também: foi muito foda.

    • Ghad Arddhu disse:

      Valeu Daniel, eu comecei a escrever um post simples sem intenção de torná-lo "sentimental" mas ai não gostei do resultado, apaguei e esperei alguns minutos. Depois escrevi de sopetão, coisa que não consigo fazer há algum tempo já. Foi muito foda MESMO!

      Obrigado pela visita!

  5. Maíra disse:

    E pensar que a gente quase não foi por conta da nossa mudança de casa. Nem quero imaginar como estaria deprimida essa semana lendo tudo isso. rs :)

    • Ghad Arddhu disse:

      Comigo a coisa também quase desandou, uns dias antes perdi o ânimo graças a uns problemas, mas ai no dia acordei cedo e decidido. Vamos esperar e ajudar no que for possível para que em 2010 seja ainda melhor. Obrigado pela visita ;)

  6. [...] O nascimento de um novo Dragão [...]

  7. balard disse:

    Melhor comentário do evento, e ótima retrospectiva do cenário brasileiro.

  8. JotaFF disse:

    Muito bom o texto. Perfeito.
    Que venham mais RPGCONs. =]

  9. Douglas3 disse:

    Muito obrigado, Gurahl, pelo seu artigo.
    Agradeço pelas opiniões, em nome da RPGCON, da Equipe d3system e, principalmente, em meu nome, pelo seu apoio e dedicação ao evento.
    Obrigado.

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