Orfeu
fevereiro 23, 2009 em 3751 d.C.
Penas sintéticas voaram e agora flutuavam pelo quarto daquele motel chique.
Um cheiro terrível de carne queimada acompanhava o das penas carbonizadas com o tiro. Precisas linhas entrelaçadas de seda que envolviam tais penas, agora tinham um rombo em seu meio, o vermelho sangue espalhado pelos lençóis de algodão Atlante fazia bom par com o carmesim da seda.
Orfeu não estava nem há dois dias em Bollywood e já tinha fugido da terrível Polícia Inquisitória da Imigração, sobrevivido à infecção sumária de uma cirurgia que removeu um implante localizador em seu testículo esquerdo e ao pior de tudo, a confusão de seu currículo com o de um ator amador qualquer de Nova Argentina.
Quando desembarcou na prometida terra das oportunidades, Índia, achou que não demoraria mais que um dia para conseguir um papel em alguma produção importante. Afinal, carregava as glórias da apresentação da Opera de Vênus em seus ombros jovens e sadios, e isso certamente chamaria atenção dos produtores que reconhecessem a supremacia da antiga arte do teatro.
Agora era outra história, não demoraria muito para que os comparsas do assassino percebessem que a denúncia falsa de toxinas hidrossolúveis que apontava para seu caminhão era apenas um engodo para afastá-los de um comparsa incapacitado. O assassino não disse nada de importante, apenas riu quando Orfeu engatilhou a pistola de projétil gravitacional contra sua cabeça.
Ele tinha a certeza de que sua eficiência em serviços anteriores garantiria um voto de confiança para um processo caro de regeneração de tecido cerebral. No entanto a raiva de Orfeu foi maior ao ligar as oito granadas de explosão de térmite antes de se afastar daquele quarto correndo, não restaria nada daquele algoz para ser regenerado.
Já havia descido cerca de sessenta andares no elevador expresso quando sentiu o impacto causado pela descompressão de tubos que conduziam oxigênio da melhor safra para os quartos mais caros. Bateu as penas que ainda estavam sem seu casaco para não levantar suspeitas, ativou em seu sub-cérebro positrônico o mais caro programa de interpretação, e emoldurou um sorriso descontraído em seu rosto.
Conforme a porta do Elevador se abria no térreo do colosso de hospedagem Orfeu se encostou contra a parede vítrea, os comparsas do assassino já estavam no Hall de entrada aguardando um elevador que indicasse estar subindo, e não descendo para algum dos andares subterrâneos ou de estacionamento.
Uma fisgada entre suas pernas lembrou Orfeu da infecção ainda sob ataque forte dos nanobióticos, a gota fria de suor que escorreu pelas suas costas lhe lembrou que não tinha um plano, e sabia tão pouco quanto quando havia entrado. A única mudança foi que ao entrar no Piazza Da Vinci, Orfeu ainda não era um assassino, talvez essa experiência fosse útil em seu currículo algum dia.
Ao passo que seu sub-cérebro processava as expressões que haviam sido desferidas no momento do assassinato, e calculava novas rotinas para as funções de drama, a porta do elevador abriu para o estacionamento S03, o cromo negro de sua moto Ninka Pluto reluziu ao reconhecer o sinal eletrônico da pulseira de proprietário.
Dois apêndices saíram da lateral da moto e se ergueram, formando entre eles um pequeno assento de amortecimento para o corpo, o engate mental deu a partida, e em silêncio a fissão nuclear dentro da pequena usina daquela maravilha veloz deu sinal de que podia ser possível escapar de uma completa confusão.
A rampa elevatória subiu as grades para que ele pudesse usá-la, Orfeu deixou o cartão do assassino no espaço de pagamento do serviço de estacionamento e quando a rampa chegou ao nível térreo ativou a troca randômica de identificação veicular enquanto guardava em seu bolso o cartão. Roubar um veículo da Polícia Inquisitória da Imigração foi sua melhor idéia até aquele momento, os veículos fantasmas da polícia eram ligados a banco de dados escusos e sombrios, sem que fosse possível rastreá-los.
Chegar ao restaurante da Barcaça Dourada era sua única pista de encontrar o responsável por enfiá-lo naquela confusão, e conforme o sistema de direção semi-automática ia elevando a velocidade do veículo, seus pensamentos começaram a se perder na única pista que tinha tido até aquele momento: O Noticiário Instantâneo que relatava sua morte neste restaurante de estrelas e celebridades há algumas horas atrás.
O copo com Deca-Vodka foi virado de uma vez para que Orfeu engolisse as três cápsulas de neurocaína, a nova fisgada pareceu dessa vez ter atingido algum estilo novo de dor e rapidamente as expressões foram memorizadas mais uma vez pelo sub-cérebro.
Incrível ver que há algumas horas uma chacina ocorreu ali na Barcaça e já não havia qualquer sinal dela, rostos não importavam tanto para os funcionários e assim Orfeu passou despercebido, sua identidade falsa estava funcionando bem demais.
Comentou com o garçom que estava no bar o quanto essas pessoas que entravam e saiam podiam simplesmente vir a falecer e jamais seriam percebidas…
- É tudo um jogo agora, por base em histórico de consumo saber as bebidas que você tem mais interesse, em com minha experiência no assunto saber se devo lhe oferecer uma delas ou se seu ânimo está pronto para algo novo – As palavras do garçom eram de alguém que entendia bem aquele negócio.
- Se qualquer um desses ricaços saírem daqui, morrer há uma quadra, sua morte não será nem mesmo sentida aqui. Isso é tão impessoal – Orfeu tentaria uma aproximação sutil para que o garçom soltasse a matraca.
- O problema de tornar pessoal esse tipo de relacionamento é justamente isso, ter que sentir o que os clientes sentem, e a política desse lugar é não dar asas a isso. Ricaços gostam de servos que não aparecem, que servem antes de se pedir, e desaparecem antes de se perceber.
- Milton Nuevo, prazer! – A identidade de Orfeu já havia sido lido metros antes de chegar ao bar, reforçá-la seria tentar quebrar o protocolo da impessoalidade, afinal, sua caçada insana era algo pessoal demais.
- Kamil Otomano, deixe-me servir mais uma dose de Deca, a primeira não deve nem ter amaciado essa dor forte que você está sentindo.
- Obrigado Kamil, sua percepção é impressionante. – Afinal, havia conseguido transpor os mecanismos de interpretação falsa de Orfeu.
- Sou bom em reconhecer dor, o tempo no Exército Prata me ajudou a saber o limite de cada homem, como o limite do homem que foi morto aqui hoje cedo… Orfeu Millestrom? – O olhar incisivo do garçom deixou claro que levantar e sair correndo não era opção para Orfeu agora.
Nessas horas agradecia seus programas de interpretação estarem conectados a monitores de stress e descarga de adrenalina, conseguiu fingir um sorriso de quem esperava por essa fala para esconder a surpresa de ter sido tão rapidamente identificado.
- Ainda quero entender como fui morto aqui, se estava há pelo menos algumas horas distante tentando arrumar um trabalho.
- Sim, parece que você é um fantasma agora, mas vejo que realmente o que foi morto mais cedo era uma cópia. Ou talvez seja você a cópia.
- E como você está certo que não sou o de mais cedo e apenas fingi minha morte?
- Talvez a falta de expressividade do homem que entrou mais cedo. Tomou três coquetéis Brasileiros enquanto descarregava a Bomba de THC nos pulmões, mas era tudo mecânico demais, me entende?
Seu coquetel preferido, Orfeu imaginou se o falsário havia colocado também uma fatia de lima adornando o coquetel para depois mastigá-la com o chorinho de cachaça pura.
- Então talvez você possa me dizer alguma coisa que me ajude, já estou com a P.I² atrás no meu encalço e um grupo de assassinos sino-africanos agora não devem estar felizes por ter matado um de seus comparsas. Tenho 3 minutos antes que eles me localizem?
- Vejo que está acostumado com a vida fácil, do contrário não saberia que esse cartão de pagamento não numerado não deixa rastros. Mas com certeza eles irão te procurar nos lugares que esteve recentemente, e posso garantir que os homens que mataram sua cópia mais cedo não eram sino-africanos nem mesmo da P.I².
- Então me diga alguma coisa, preciso escapar desse pesadelo, pode ficar com esse cartão, ainda tem crédito suficiente para comprar um bom veículo ou prazeres de requinte. Não quero morrer ainda, tenho muitos assuntos pendentes nessa vida, se é que você me entende – Orfeu sabia que sua vida era vazia e baseava-se apenas em conquistar prêmios de atuação. Se tornava mais vazia quando lembrava que sua atuação era “plástica”.
- O melhor a fazer é usar esse cartão e sumir de vez, você não tem o sangue necessário pra começar uma caçada pela verdade. A verdade é um artigo de luxo hoje em dia, somente os fortes ou os que podem pagar os fortes conseguem ir atrás dela.
- Mas jamais poderei retornar a minha vida, voltar a fazer o que gosto, e sem nem saber o porque disso. – Não haveria ninguém para se importar com Orfeu, isso era fato.
- Então corra por aí, fuja por hoje e encontre os aditivos certos para seu sangue, porque agora ele possui apenas sorte demais de ainda estar vivo. Se quer uma dica, os templos do Sul de Lemúria encontrariam utilidade para suas habilidades teatrais, e ali você estaria protegido.
- Seu tempo acabou, em 30 segundos a P.I² entrará por aquela porta, corra quando eu mandar, como se o inferno estivesse atrás de você, não olhe para trás e nem volte aqui novamente. Quando tiver a certeza de que seu sangue está bom o bastante, e apenas quando tiver essa certeza, ligue para esse número. – Kamil entregou um cartão de papel cromado velho, com um telefone escrito em preto e baixo relevo.
Orfeu pensou em chorar, o garçom estava certo, ele não tinha o necessário para essa caçada. Apenas a sorte o manteve até ali, e certamente até o fim da noite acabaria dentro de um saco preto a caminho de uma incineração de indigente.
- Agora!
A neurocaína já havia começado a exercer seu poder químico, as fisgadas não estavam mais ali e Orfeu conseguiu correr com impulso novo graças ao poder binário daquela droga, quando passou pela porta indicada viu que estava num corredor longo. Levou sua mão ao pulso com o bracelete e indicou um ponto para que a Ninka Pluto o encontrasse.
Essa corrida era pela sua liberdade momentânea, Orfeu sabia que se conseguisse o necessário, voltaria para cobrar aqueles malditos que tomaram sua vida. Ao encontrar a bela Ninka Pluto engatada para correr para o mais longe possível conseguiu tomar um novo fôlego para sua vida, olhou para trás e guardou a imagem dos fundos da Barcaça Dourada, um dia voltaria para retomar sua vida.
Assim que Orfeu passou pela porta que automaticamente se fechou atrás dele, a P.I² entrou empunhando armas e distintivos, Kamil viu que eles se dirigiam em direção a ele, quando estavam há menos de cinco metros de distância, o Indiano que bebia Cherry Scotch tentou fazer uma virada cinematográfica com uma pistola ilegal de cadência baixa.
Antes que completasse a volta o Indiano estava com quatro dardos de choque em seu flanco, um dardo de toxinas em seu pescoço, e ao completar a volta foi de encontro ao chão.
Os homens da P.I² desculparam-se com todos pela cena e incômodo, e levaram o homem arrastado para fora. Kamil aceitou a chamada de seu comunicador e respondeu:
- Sim, ele apareceu. Sim, ele está indo para a região indicada. Aguardo meu depósito ainda essa noite.
No final daquela noite Kamil estava com dinheiro suficiente para pagar e cancelar o embargo de seu bar, Orfeu corria de rumo a um destino que sequer imaginava e um pobre Indiano que falsificava identidades estava sendo levado para interrogatório da P.I².
Um dia comum havia passado em Narmada.
Continua em: Sete Dias




















Quero ir pra Narmada tomar Deca *rsrs
Gostei… quero a continuação!!!
Maneiro a história ghad! muito legal!
=D
bem cyberpunk^^
Valeu leo, espero que curta a saga que planejei por completo.
Meu cérebro psicotrônico somou a lida dos meus olhos enteogenicos e eu pirei nesse conto que conta um conto.
Magnifico!
Clébão
Hahahah Cleber, de piração a gente entende bem né.
Do que posso reclamar? Um conto de ficção científica muito bem narrado, consistente e inteligente…
Obrigado pelos elogios, meu objetivo é melhorar sempre!
Cyberpunk mesmo! Com fórmulas marotinhas no meio
Fórmulas marotinhas? Hahahahah só você mesmo…
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Continuação pedida… continuação concedida!!! Vou te twittar agora pra certificar que saiba disso