Sete dias

maio 3, 2009 em 3751 d.C.

Continuação de: Orfeu

Cinco partes de semente secas de Algarve negro , duas partes de Acácia D’Ouro Fresca, uma parte de sangue de lebre silvestre, uma parte de cerveja…

- Sim, estão todos os ingredientes aqui.

Orfeu conseguira cumprir a tarefa dada a ele pelo Fármaco Numi, reunir aqueles ingredientes não foi uma das tarefas mais difíceis desde que havia chego aos Templos no Sul de Lemuria mas ainda assim tinha sua parcela de dificuldade, disputar as sementes secas de Algarve negro com os pássaros lhe rendeu bons cortes e quase a perda do olho direito.

Enquanto caminhava pela pequena trilha de quartzo prensado até a morada de Numi pensava a respeito do que todos falavam na vila sobre o velho, diziam que ele era um poderoso Mago, mas certamente Orfeu não havia entendido bem a palavra ainda naquela língua estranha.

Cada um dos pensamentos difusos de Orfeu apenas tentavam produzir uma negação quase estúpida à realidade; A magia existia em pleno século 38 e ele mesmo já fora alvo de efeitos mágicos em diversas situações.

O poder da magia dentro das grandes cidades era limitado, por alguma razão que nem os estudiosos científicos nem os mágicos haviam ainda conseguido decifrar, a magia em seu renascimento transformou a Terra de uma maneira impossível pelos parâmetros científicos.

As grandes cidades normalmente faziam a magia se tornar uma força reprimida e fraca mas ainda assim em algumas raras grandes cidades a magia existia com força plena. Jamais fora encontrada uma evidência concreta do porquê as coisas funcionavam assim.

Essas questões eram assunto comum dos estudiosos, e a questão que lhes tirava o sono era como em algumas regiões a tecnologia simplesmente não funcionava direito ou não funcionava de forma alguma, era como se houvessem campos permeando o planeta dizendo onde cada coisa poderia funcionar.

Os territórios onde nem a tecnologia nem a magia funcionavam ainda eram territórios abandonados há tempos, afinal, ninguém gostaria de ter um Lêmure-leão correndo em seu encalço sem poder proteger-se com um bom escudo mágico ou uma precisa pistola de matéria negra.
Todos esses fatos foram reapresentados a Orfeu, era o tipo de assunto que não lhe interessava na formação básica já que desde pequeno sabia que seria um dia um ator de sucesso e seus assessores cuidariam dos roteiros para evitar rotas problemáticas, os presentes dias mostravam que toda informação ignorada deveria ser resgatada.

Terminando o caminho de quartzo prensado chegou à porta de Numi e lá estava o velho Lemuriano em sua “cozinha” ao lado da casa, o velho acenou para Orfeu e deu um sorriso com seus dentes de um branco intenso, contrastando com sua pele quase basáltica e seus olhos dourados como manhã de sol.

Chamavam aquele espaço de cozinha, mas era uma simples armação de alguns metros com um teto no qual se encontravam algumas ferramentas estranhas, um caldeirão velho em um forno a lenha que alimentava também uma espécie de forja, um armário alto e longo feito de madeira de Sândalo-Âmbar e várias peles de sapo, orelhas de vaca, roedores secos, todos pendurados ou dentro de recipientes.

- Mas veja veja, o garoto conseguiu encontrar todos espíritos, bom sinal de aprendizado.

Orfeu se sentia confuso ainda quando Numi falava muito depressa, ele não conseguia entendê-lo perfeitamente em sua língua natal e sempre precisava pedir que repetisse se não uma, duas ou até três vezes.

Após sentar no tronco de árvore cortado e transformado em banco de aprendiz ou de cliente, Orfeu conseguiu entender que havia conseguido encontrar com sucesso todos os ingredientes necessários dentro do tempo correto.

Numi disse que se passasse daquela tarde, o feitiço não mais poderia ser feito daquela forma, a teia de magia tinha regras complicadas e que se mutavam com velocidade incrível, após colocar algumas coisas para esquentar no caldeirão lançou ao fogo direto uma pequena latinha com outros ingredientes.

Em menos de 5 minutos Numi já estava sentado junto a Orfeu que permaneceu em silêncio enquanto o velho trabalhava. O aprendizado com Numi muitas vezes se consistia apenas em fazer o que ele mandava e vê-lo trabalhar sem qualquer interrupção durante o ofício, e quando Orfeu achava que tinha entendido algo, rapidamente seu tutor lhe mostrava que ele estava solidificando demais o ensinamento.

Muitos conceitos estranhos para Orfeu, mas foi para Numi que ele foi enviado ao chegar nos templos, o Sacerdote que o acolheu disse que os espíritos e as linhas de energia ordenavam que ele aprendesse com o velho feiticeiro.

Do bolso traseiro de seu avental o velho tirou uma pequena caixa de cigarros, levou um deles próximo ao nariz e pareceu experimentar o aroma forte daquele bastão de tabaco que preencheu o local com seu doce aroma, o acendeu em um pedaço de carvão incandescente do forno e começou a falar mais uma vez com Orfeu, mas dessa vez falava na língua de Orfeu com surpreendente maestria e fluência.

- Você sabe como fico feliz e contente quando as linhas de energia fluem perfeitamente, o trabalho que estamos fazendo aqui hoje vai providenciar que você possa enfiar um pouco de Bari nessa sua carcaça quase sem vida.

Bari, essa palavra que tanto era usada por aquele povo significa energia, mas ao mesmo tempo era a magia e as linhas de energia que tanto eles citavam, tinha uma importância fundamental que Orfeu apenas tateava no escuro quanto a seu entendimento.

Em seu primeiro encontro com Numi, Orfeu sentiu a rejeição do velho sem nem entender sua língua, foi somente após ficar por quase uma hora parada naquele banco rústico e receber seguidas espirradas de um líquido que fedia como urina que o velho deu seu primeiro sorriso e abraçou Orfeu.

- Quando você chegou aqui Orfeu, você era apenas mais um escravo do concreto, e seu Bari estava apagado, estava mais seco que as mamas de uma velha guerreira. Com a poção que estamos preparando, você vai levar Bari novamente para suas linhas de energia.

- Tudo bem Numi – o tratamento por senhor foi uma das primeiras recusas do velho ao aceitar tutorar Orfeu- mas porque esses ingredientes? Eles têm alguma propriedade alucinógena ou vão me fazer ver coisas?

- Eles vão te fazer ver coisas, mas não da forma que você estava acostumado a ver com suas drogas, eles não vão apenas agir no seu cérebro, vão agir em suas linhas de energia e dar-lhes vida para que possam mais uma vez fluir a energia que a tudo toca.

- Os ingredientes que você recolheu tem seu próprio Bari, seu próprio espírito, e se usados da maneira certa no momento certo, permitem que magia possa ser feita sem que você tenha qualquer potência mágica em você.

Todas as palavras dele pareciam negar a potência psicodélica, química ou enteógena em que Orfeu havia se apoiado.

- Mas dizem que você é um grande mago, porque não faz você mesmo a magia aqui?

- A magia apenas transmuta energia Orfeu. Ou a de quem a faz, ou a da natureza a sua volta. Sou muito velho, mesmo não parecendo, e usar meu próprio Bari para revivar o seu consumiria muito minha energia e poderia me levar a falecer. – O método de explicar as coisas de Numi fazia muito sentido para Orfeu, afinal, a energia tinha que vir de algum lugar!

-Por que não usar a energia da natureza então Numi?

-A razão é simples, nessas terras é proibido usar tanta energia da natureza assim, se eu fizesse isso teríamos amanhã oficiais em minha porta prontos para me matar e lançar meus pedaços pela terra, para que meu Bari compensasse o que usei.

- Orfeu, um truque simples consome pouca energia e essa energia a natureza recicla rapidamente. Mas fazer algo que requer tanta energia pode fazer algumas regiões se tornarem permanente estéreis.

A explicação fazia sentido, Numi havia dito sobre alguns feiticeiros que não passavam de espectros vagando pelo mundo, eles haviam consumido todo seu Bari e certas energias e espíritos lhe davam energia extra, mas lentamente a identidade desses feiticeiros sumia. Eles se tornavam uma mescla desses espíritos e de toda sua maldade.

- Entendo Numi, ou acho que entendo, é um pouco confuso. Mas porque então os ingredientes resolvem isso, não é a mesma coisa que retirar a energia da natureza?

- Hahahahahaha, meu bom garoto. Seu Bari será bem vindo a essa casa quando for a hora, sua pergunta é a questão que estava esperando você abordar:

“Os ingredientes certos realizam proezas únicas que superam a bruta absorção da energia da natureza, porque você tem de colhê-los, caçá-los e muitas vezes sangrá-los. Essa sua ação gera uma retribuição pela energia que você irá consumir para seu feitiço.

Se você souber ler as linhas de energia com precisão, você pode potencializar a força desses ingredientes, e assim a magia pode ser manifesta sem consumir sua energia ou a energia bruta da natureza. Você não corrompe nem a si, nem à natureza.”

- Isso significa que eu posso então adquirir muito poder se eu fizer matança sem limites, esvaziar florestas para conseguir ingredientes e estar sempre preparado?

- Esse é o erro dos tolos Orfeu, a energia enfraquece lentamente ao ser guardada, mas o maior problema é que os atos de destruição que são necessários para essa atitude, transformam o feiticeiro de uma maneira irreversível. Ele se tornará um espectro da mesma forma.

Era uma expressão triunfante a de Numi. Orfeu chegou num estágio onde Numi podia explicar aqueles conceitos, e esse estágio por muitas vezes os pretensos sábios jamais chegavam, se perdiam no meio do caminho da descrença ou do apego a outras verdades. Tinham suas linhas de energia secas e inférteis.

- Então a sua sabedoria está em equilibrar suas necessidades e a utilização de energia? – Orfeu via que era fácil demais entender aquilo.

- Sim Orfeu, e mesmo sendo algo fácil de se entender, os que caminham por trilhas corruptas se recusam a entender ou fingem não entender. A sede de poder nessas pessoas os faz ignorar todos avisos naturais, lógicos e emocionais que mostram o erro no qual persistem. Exatamente como aqueles que poluem a terra ou abusam de qualquer outra coisa em sua vida.

O primeiro estalo da latinha dentro do fogo foi solitário, demoraram alguns segundos para que houvessem os seguintes, e seguiram-se em uma forma ritmada que lembrava pipoca estourando.

Numi apagou a brasa do cigarro com seu pé descalço e com o auxílio de uma pinça de ferreiro retirou a latinha de dentro da brasa, ela ainda mantinha estouros em menor velocidade e quantidade, mas eram suficientes pra fazer com que a latinha parecesse estar viva.

Deixando a latinha em cima de uma mesa improvisada Numi retirou sua tampa e revelou o conteúdo a Orfeu, eram realmente pipocas.

Essas pipocas pareciam ter sido feitas de mel e água pois tinham ao mesmo tempo um suave reflexo, brilho, e a transparência do vidro.

Ao lado da latinha Numi colocou uma velha caneca e nela derramou um líquido cinza que parecia mingau, jogou a pinça de lado e disse a Orfeu que aquela seria sua última refeição por sete dias.

Os sete dias à sua frente seriam longos e ele poderia dispor apenas de poucos litros de água a cada dia. Antes que fizesse a tolice de perguntar o porque do número sete, lembrou da primeira piada que Numi fizera com ele, e a resposta ecoou em sua memória com bom humor:

“Sete? Porquê sete são os dias que quero ficar livre de você, hahahahaha!”

Continua em: O Olhar de Azazel

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