Supergods, livro de estréia de Grant Morrison na literatura é um título um tanto quanto ousado, seja pelo seu nome ou seja pela sua proposta, mas cumpre seu desígnio de forma igualmente ousada e feliz.
Nas 464 páginas desse primeiro livro, o escocês nos apresenta sua vida de forma desmistificada, sem valer-se de seu título de “rockstar” dos quadrinhos. Em uma síntese até certo ponto bem honesta ele vislumbra seu passado em um lar hippie que se desfez por excesso de amor ao próximo e passeia por consequências em sua infância e juventude moldadas por valores pacíficos tendo como companheiros os quadrinhos.
Assumir que sua infância foi, o que hoje muitos consideram, uma infância de um perdedor, ao nos deixar claro que em muitas das vezes o que ele queria era apenas transar, o semideus dos quadrinhos que figura ao lado de nomes como Neil Gaiman e Alan Moore consegue transmitir empaticamente como foi o crescimento de suas cadeias de pensamento, sua criatividade e todo referencial que ele carregou consigo em um número imenso de sucessos.
Supergods não resume-se a uma autobiografia embora funcione perfeitamente como uma, ele funciona também como uma análise meticulosa dos conceitos que Grant Morrison formou no decorrer de sua vida a respeito dos quadrinhos, sem enfoque em editoras ou continentes, analisando a teia ocidental dos mesmos e calculando por sua livre vontade o que é, foi ou será importante.
Talvez seja esse o aspecto mais importante desse livro, a visão ampla que o escocês tem dos quadrinhos e de sua influência desdencente e ascendente. Ela é a responsável por nos conduzir pelas quase cinco centenas de páginas como se incorporassemos “The Flash”, o homem mais rápido do mundo, pois sua linguagem não é complexa e nem apela para conhecimentos prévios que inundem uma estante de livros.
O careca está simples em suas palavras e anedotas nos contando como foram os bastidores de suas criações “quadrinhísticas” até mesmo quando nos leva a linhas insólitas que falam de suas viagens pelo mundo, pelas drogas ou pelas dimensões.
Sem posar de rockstar (mais uma vez) que considera drogas como algo apenas “cool”, ou mesmo como um ferrenho proselitista moderno da libertação das substâncias inebriantes e intoxcantes, ele conta algumas de suas aventuras e desventuras no campo das substâncias qua alteram a mente, seja no momento ou mesmo para o infinito e além.
As análises feitas sobre as décadas de 80, 90 e 00 são bem realistas, levam em conta as influências deixadas pelos quadrinhos e até mesmo os números de vendas. Não apenas das revistas, mas também de muito do “hot sauce” que acompanha toda essa indústria, brinquedos, action figures, revistas e até mesmo os campos da intermídia.
O convite feito a entrar na mente dele também é honesto, e a palavra honestidade parece permear o livro inteiro, como se estivéssemos em um bar tendo a oportunidade de ouvir suas palavras sinceras sem usar máscaras ou artifícios de narração. Tais convites podem no entanto extrapolar da boa vontade (ou limites de horizonte da mente) de seus leitores se eles quiserem levar tudo a ferro e fogo, como palavras de um líder religioso.
Grant Morrison confude os leitores nessa honestidade passeando pelo contato com fãs realmente bizarros em certas convenções de quadrinhos e abusa da capacidade de pensar “fora da caixa” ao nos relatar seu encontro com entidades da “quinta dimensão” ou mesmo com a aparição do Super-Homem à sua frente no meio de uma rua comum em uma cidade comum. E com testemunha!
Não é tarefa fácil acompanhar todas essas revelações sem sequer soltar uma gargalhada. Mas ora, certamente o careca deseja que gargalhemos ao ler seu livro, afinal, a gargalhada é o melhor banimento para energias perniciosas e maléficas.
Sua declaração é simples, ele se considera um “Mago do Caos” e quanto a Caos aqui não pensem em termos judaico-cristão ou maniqueista, para entender o que ele declara, leia esse artigo da Wikipedia com conceitos bem básicos e simples e se se interessar por saber mais a fundo, leia esse aqui também, no site Divagações (realmente grande), assim você poderá ter uma concepção mais apurada. E como um mago do caos, ele empunha seus sigilos, ou hipersigilos, como armas para sua causa.
Grant Morrison viveu sua vida, até escrever esse livro, ao máximo e toda sua condução de narrativa sobre a própria vida nos deixa claro que ele continuará a fazê-lo até que alcance “oitavas superiores” definitivas. Não existe uma constante, nem mesmo em sua genialidade, ele mesmo assume seus erros e nos deixa claro quando fez isso ou aquilo apenas pelo “vil metal”. A alguns espantará ver que ele não age com mesquinhez quanto a suas ideias, nem mesmo quando elas são utilizadas de forma diferente com certa margem autoral (sim, refiro-me ao embate Matrix/Invisibles).
Passeamos por conceitos de magia do caos, psicologia jungiana, análise mercadológica, conceitos de sociedade e de gerações, música e arte e toda uma infinidade de conceitos que são as bases do escocês como se estivessemos literalmente em uma conversa de bar. A figura dele se mostra completamente simpática e lúcida ao falar até mesmo de figuras imortais, como Kirby.
Supergods é uma narrativa heróica que une religião, quadrinhos, pensamento pop, heróis e mídias nos contando a história desse escocês que a cada nova obra consegue nos intrigar. Um livro recomendado para todos aqueles que são fãs dos quadrinhos, heróis, mitologias e histórias, pois o que ainda ele tem para nos mostrar adiante em suas revistas não é pouco, e ter algumas informações de bastidores sempre nos dá um sabor especial ao desvendar as páginas que são cunhadas pela sua mente ágil e precisa.
O livro Supergods ainda não foi traduzido, existem rumores que uma tradução para ele está sendo produzida e será lançada em 2012. Assim que as informações forem reveladas, terei o imenso prazer de compartilhá-las com vocês.
Caso queira saber mais sobre Grant Morrison recomendo esses links:
Grant Morrison: Site Oficial (o site oficial do escocês em língua inglesa)
Multiverso DC - Tag Grant Morrison (notícias relacionadas a quadrinhos e ao careca mais maluco já existente)
Wikipedia – Grant Morrison (artigo bem completo sobre o cabra)













Cara, do jeito que você comenta, o livro lembra, e muito, os livros do Scott McCloud "Desvendando os Quadrinhos" e o "Reinventando os Quadrinhos", onde o autor faz uma abordagem mais solta e dinâmica sobre o modo de contar a história e a dinâmica dos quadrinhos modernos.
Se não leu, vale muito a leitura!
No mais, parece ser mesmo um puta livro pra se comprar. Com certeza, vai pra minha lista de aquisições.
Abraços!
É um livro realmente excelente, tem muitos pontos interessantes para se refletir a respeito se você gosta de quadrinhos de super heróis e de super heróis no geral.