Fragmento recolhido de um caderno velho.

Se o melhor exercício para escrever e realmente começar a escrever, então estou muito fora de forma.
Minhas idéias não conseguem mais encontrar um fluxo saudável de uma forma linear.
A importância que tenho dado a escrever talvez esteja me impedindo de tornar o fluxo saudável acessível.
Essa idéia de importância é como um exagero onde (ou no qual) eu devo apenas escrever o que achar conscientemente interessante, apenas o que for interessante deve ser escrito. No entanto isso parece uma desculpa para não escrever, uma fuga.
Me pergunto sinceramente do que estou fugindo e vem algumas alternativas a minha mente, medo do sucesso, medo do fracasso, ou pura preguiça?
Embora eu esteja mais inclinado para acreditar que seja a preguiça, creio que a solidão que venho sentindo tem feito com que eu assista TV de forma quase incansável.
É o velho argumento da TV entregar o produto pronto, apenas abrir a embalagem e desfrutar. Sim a possibilidade da TV capar minha imaginação e criatividade é bem possível e plausível.
Outra cosia que tem me atrapalhado bastante é o apreço pelas canetas e cadernos, bem como sua organização e beleza.
Parece que gosto de deixar tudo bem arrumado para esperar que a inspiração apareça de forma mágica, quando na verdade ela surge meio ao processo de escrever.
Materialismo é a palavra que me vem à mente, ele age na paixão excessiva pelas ferramentas e pelo trabalho em si.
Estética e estilo, talvez tenha me tornado um dependente de algo projetado pela minha carência e sentimentos de auto-importância.
Ao desligar a TV e começar a escrever qualquer coisa, vejo que o maior e talvez único problema que andava me atrapalhando em escrever, era não dar início a isso.
Escrever no papel, e em qualquer um, seja de um belo caderno ou mesmo um bloco de rascunhos, seja com belas canetas ou mesmo comas mais baratas e vagabundas.
Voltar a escrever me traz alívio pois de uma forma intuitiva “caio em mim” na concepção de que para escrever basta começar.
Não devo dar uma importância especial ao ato de escrever, tornando este ato tão sagrado que para começar eu tenha de ter a sensação de importância.
O melhor de escrever para si é, a possibilidade de não precisar se fixar a regras, não temer escrever algo repetitivo, nem mesmo se preocupar com sua caligrafia ou as impressões futuras que você terá do que escreveu.
Este ato orgânico simplesmente segue por si ao ser iniciado, e de uma forma satisfatória parece tirar um peso de meus ombros.
O único problema real encontrado enquanto estou escrevendo é o formigamento de minha mão.
Nada que uma breve pausa para fazer o sangue voltar a circular bem (balançando a mão para baixo e para cima) não possa resolver.
Então qual era o maior obstáculo que me fazia não conseguir escrever?
Não tentar!
Com o tempo e o condicionamento físico de minha mão e braço devem melhorar (falta de costume).
Com a prática minha caligrafia pode melhorar, basta treinar sempre, aos poucos vou conseguir encontrar minhas próprias letras.
Um último pensamento me vem a mente, e ele me lembra de minha dependência digital.
Devo me tornar menos dependente do digital, devo me permitir ser um pouco mais analógico.