Terra Pura

agosto 30, 2009 em contos

Continuação de: O Cão

Doce brisa que soprou, pareceu a princípio que o tempo seria frio, que viria uma leve calmaria no calor que assombrava meu interior e boa parte de meu exterior.

Poderia dizer que estava numa terra velha, mas não pelos princípios do homem e sim por ter sobrevivido a  muitos e muitos povos que por ela passaram. Uma terra primordial, e ainda assim, pura, porém incompleta.

Ao longe uma árvore chamou minha atenção, coberta por uma armadura de ossos aparentemente de crianças, transparentes e finos, como somente existem em doce idade. Não percebi de imediato mas, inscrições que minha mente consciente jamais conseguirá entender estavam ali, o mais estranho naquela árvore era ver que ao invés de folhas, de seus galhos brotavam teias, aquela árvore não era apenas uma simples árvore, era um ser vivo e consciente ativamente, que brincava com as visões e com os sentidos.

O frio que a brisa trouxe sumiu simples como chegou e pude sentir o calor das quatro fogueiras que ardiam, eram quatro fogueiras distantes mas o calor delas era único e emanava em toda extensão que minha vista alcançava, suas cores pareciam uma brincadeira com o pensar, uma verde e a sua frente uma negra, uma vermelha e a sua frente uma laranja, elas tremeluziam num brilho bruxuleante, que em nada era comparável ao calor delas, aquele calor não era fogo.

Para alguns olhos um massacre, para outros uma profanação, mas a visão foi simples e deliciosa: A população que estava ali não era de forma alguma comum, não comum ao que nossos olhos do dia a dia enxergam, eram extensões, emanações e exteriorizações, claras e objetivas a si mesmas, mas não a meus olhos.

As mulheres eram inúmeras, algumas tão altas como as árvores, outras minúsculas como orvalho da madrugada, muitas delas traziam traços alienígenas e outras deformidades espalhadas pelo corpo, raras eram aquelas belas ao meus olhos e senso comum.

Apenas uma delas me atraiu de verdade, mas sobre ela falarei depois, pois a primeira a qual meus olhos foram atraídos era alta e forte, sua pele era bronzeada com cicatrizes vermelhas que a cobriam como desenhos por toda região da perna, possuía um único seio centralizado, firme e belo e em seu rosto estava o gozo da satisfação.

Ao olhar novamente para baixo vi que havia um pequeno ciclone, uma miniatura dele. Pareceu claro então, mas não compreensível, que ali estava o motivo do prazer da Senhora em questão, e aquilo me pareceu belo aos olhos, e sorri internamente, pois apenas prazer, mente e arte estavam ali.

Um pequeno grupo de mulheres se destacava,  possuíam penas pelos braços, como se desejassem alcançar voo e ao seu lado estavam outras que tinham seus cabelos formados por espinhos enormes.

O mais estranho no entanto eram algumas que estavam acima de uma pilha de homens deitados, tiravam a pele deles para vestí-la mas os homens sequer sofriam, levantavam vivos e corriam, alguns se atiravam às fogueiras, outros pulavam em direção ao céu e sumiam, mas um deles correu de frente a um unicórnio que estava distante.

Negro e feroz, pelo seu corpo pude ver várias coisas estranhas, eram como cortes, e quando minha vista se aproximou por um momento fiquei aterrorizado. Todos os cortes era na verdade vaginas, e a ferocidade do Unicórnio se transformou em um néctar doce e denso, que por um segundo me fez adormecer.

Acordei naquela visão pelo grito de um novo grupo de mulheres, elas gargalhavam enquanto a sua frente chegavam centauros com falos enormes a mostra, eles estavam eretos e as mulheres iam de encontro a eles. Juntos eles galopavam, e o simples movimento gerado pela corrida fazia com que elas se derretessem de prazer, aquilo me foi tão agradável, que apenas entendi quando vi que eu era um daqueles Centauros.

Em meu peito se agarrava uma mulher, cujo rosto era fino e belo, seus olhos faiscavam entre o azul do mar e o verde das florestas, sua pele branca parecia viva, e suas sardas navegavam por sua pele a cada gemido, seu cabelo ondulado e vermelho como o fogo estava solto, naquele momento me perdi em davaneios e pensamentos.

Novamente a cena era o centro das quatro fogueiras, onde haveria, caso fosse traçada uma cruz, um ponto de ligação entre aqueles quatro mundos delineados. No centro estava um gigante, seus olhos brancos transmitiam êxtase contínuo, seu falo era do tamanho de uma daquelas mulheres “normais”, e de uma forma chocante ele era adornado por várias mulheres  pequenas esculpidas, todas cantavam junto a ele.

Uma chuva leve começou a cair e ao invés de fazer com que as fogueiras recuasse, sua chama subiu como uma torre aos céus, quando olhei para cima cortou o céu um relâmpago fulminante descendo em direção ao falo daquele gigante, um segundo e um terceiro, e foram vários relâmpagos, e a cada relâmpago que explodia ali, todos seres presentes estavam em êxtase.

As mulheres adornadas com peles masculinas dançavam enlouquecidas enquanto a chuva cada vez se tornava mais forte e pesada, aquilo apenas alimentava a terra e, o sangue que era derramado de cada cópula era absorvido vorazmente, névoas surgiam e sumiam como convidados de passagem, ouvi então o toque dos trovões que eram como tambores sem ritmo.

Sim, havia ali uma comitiva sonora que anunciava algo importante por acontecer, o gigante estava ao centro dançando em círculos e a cada nova volta seu rosto se transformava, meus sentidos estavam sendo sobrecarregados:

Ouvia a música dos elementos, sentia em minha narina o néctar daquele unicórnio, em minha boca estava o gosto das mulheres, meus dedos tocavam a terra e o sangue, e a visão era bombardeada pelas mulheres, pelos homens, pelos centauros e ciclones, e num momento tudo me pareceu o trecho de uma ópera, sendo executada com tamanha maestria que rivalizava com tudo que eu já testemunhara.

E foi assim, suavemente e com todos sentidos sendo excedidos, tendo prazer na forma de relâmpagos contínuos e aparentemente sem rítmo, que os trovões explodiram a audição e marcaram o momento em que do céu desceu, sim desceu numa forma que as mentes chamariam de profana, desceu ele negro e com seus dois pares de chifres recém conquistados, o Anti-Deus.

Com seu coração a mostra ele trazia em fronte uma coroa de espinhos, desceu à terra e pude ver um suspiro de alívio quando suas pernas de bode encostaram no solo, a coroa tombou e seu ferimento pelo qual era visivel o coração foi fechado.

Não mais era um centauro e a minha volta pude ver que cada um daqueles seres mágicos e sinistros que participavam daquela ode convulsionavam de prazer cada um a seu ritmo, cada um a seu compasso, a terra parecia tremer com o impacto de seus corpos mas não era essa a razão, as muitas Ninfas e Dríades, que antes corriam, agora estavam no chão em uma metamorfose contínua que as confundia ora com a terra, ora com a grama, seus traços humanos delicados vibravam e se tornavam fortes sem o menor aviso e aos poucos elas se moviam em direção ao gigante.

O ponto alto da cerimônia estava sendo alcançado quando aos poucos todos seus integrantes se tornavam árvores, crateras na terra, montanhas em miniatura, pequenos leitos de rios prateados, e por fim restava apenas o Anti-Deus, sua obra estava próxima a conclusão e consegui na fração de segundo que me foi possível, ver que a terra agradecia a ele por sua restauração.

A Terra Pura estava novamente se reintegrando e reconquistando sua força, a força que, no passado lhe fora roubada por um deus jovem e furioso cujos súditos varreram sem respeito ou reverência, e assim, a força ancestral derradeiramente voltava a sua origem.

Estrelas sorriram quando o Sol Triangular se revelou no céu daquele momento…

Continua…

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