Tulpa Medula 1
agosto 16, 2010 em contos
No dourado, o escarlate em trânsito
“Ah, do alto do monte sagrado…”
Em rubro se vestia o templo antigo, paredes de eras mitológicas no qual o canto múltiplo dos pássaros canoros quebrava o silêncio. Ninguém poderia imaginar que naquele fundo magistral de tema escarlate, adornado por laranja e ouro, tamanha situação se desenvolvia.
Uma tempestade, inicialmente disforme, se organizava manifestando-se através de um único pensamento, dele, raios eram lançados no mundo invisível faiscando como sinuosas serpentes de pólvora em ignição constante.
Audível era apenas um trovão conscrito aqui ou acolá que ribombava nas calamidades e extremidades do destro e sinistro. Dava-se, portanto, um choque entre as realidades e paradigmas.
Logo mais ao longe em um templo menor, cor de terra e também adornado com ouro velho, gongos matinais de bronze polido ressoavam e combinavam sua essência musical com a de antigas cornetas gigantes de latão martelado.
A canção estridente que se ouvia trazia alegria e paz, se formava com notas suntuosas que não podiam ser deixadas de lado por quem as ouvisse fazendo um claro convite que ecoava pelas montanhas silenciosas, aos raios quentes do novo dia.
Os adeptos do monastério ainda se moviam quase invisíveis por trás de colunas e passagens semissecretas em passos silenciosos, precisos e rápidos para suas muitas obrigações do dia a dia.
Enquanto isso no mais alto quarto do sagrado templo, o mais simples dos quartos, gotas caiam no chão de madeira velha. Caiam do nada como se a umidade natural do ar se solidificasse graças a um frio inexistente.
Tão belas eram as gotas, vítreas em sua transparência, mas não completamente fluídas, que encantariam os olhos de qualquer artista ou apreciador do que era estranhamente belo e conspicuamente sublime.
Ao passo que elas caiam, agarravam-se umas as outras como por magnetismo confuso, não se moviam mais com tanta facilidade após isso e lentamente se aglutinavam em uma massa única, como poderia ter sido profetizado.
O espaço constrito foi rasgado sem som ou reação, fazendo surgir uma linha negra no horizonte próximo que parecia se formar a partir de onde, hipoteticamente, as gotas tinham sua origem.
Aquele risco negro que atravessou a realidade do espaço parecia não interferir em nada naquele local. Sem se perturbar por aquele evento, as gotas continuavam seu movimento perpétuo de queda, sincronizadas, sem sequer variar em tempo ou quantidade.
Outrora susto poderia causar, mas não naquele momento e naquele local, quando o risco revelou-se um olho abrindo calmo e romântico no ar. Sua pupila que não era redonda, mas triangular e de cores cósmicas, parecia trazer consigo calmaria excessiva pela falta de sangue em seus vasos imaginários.
De matiz cinza, o olho parecia não focar nada em específico. Flutuava no ar como se fizesse parte de uma paisagem visível apenas por aquele ângulo, qualquer um que encarasse o triângulo central poderia perder a vida pela tentação de desvendar todos os mistérios que se exibiam nos confins daquela pupila semiespelhada.
Logo ali onde as gotas caiam aos poucos, a massa passou a assemelhar-se visualmente à cera de velas antigas de sebo. O olho flutuante pareceu por um momento ficar vidrado, esboçando alguma emoção confusa, quando sem aviso as gotas se transformaram em luz.
Os vasos sanguíneos daquela bizarrice flutuante forram irrigados com velocidade e fúria, pareceram prontos para a explosão com a cena, mas em sua sapiência suprema sabia que o momento certo para isso já fora perdido.
Como em uma marcação musical crescente, as gotas que eram agora luminosas se multiplicaram aceleradas, erguidas num pilar que atingiu a altura de um homem.
O pilar balançou ao sabor da suave brisa que entrava pela janela pequena e solitária do quarto e do meio dele se desprenderam apêndices como dois braços cansados, em seguida mais dois logo abaixo, dessa vez assemelhavam-se a pernas.
Na sinfonia silenciosa de partes luminosas se agrupando e sendo afinadas e de outras se separando e sendo expandidas, foi formada a silueta quase translúcida de um homem alto, magro, de traços firmes e proeminentes.
Enquanto o corpo recém-formado ainda estava etéreo e luminoso, de seu umbigo podia ser vista a formação de uma rachadura que corrompia a luz. Naquela lanterna humana, conforme a rachadura se expandiu formando afluentes e netos, a luz começou a tombar como partículas que se esfarelavam no ar.
Os traços do homem se solidificaram sendo revelados suavemente embora de forma veloz ao passo que cada uma daquelas pequenas luzes se apagou. Por fim, restavam apenas alguns segundos para que a totalidade daquela materialização fosse atingida em um movimento orgânico.
Vendo o ser que se formou a sua frente em estado ainda catatônico e de olhar nebuloso, o velho mestre vestido com apenas metade de seu tórax em laranja sorriu sem pretensões ou orgulho, com uma expressão definitivamente infantil em sua pureza.
O belo sorriso dado em seu último suspiro foi precedido de uma nota inigualável naquele dueto de instrumentos antigos que ainda tocavam ao longe. Pensaram os adeptos que era por descuido dos que os tocavam, mal sabiam que a nota dissonante era causada pela súbita transmutação da vitalidade daquele tempo.
Ora que, a morte se aproximou de modo que julgava irrefutável e abraçou o velho mestre em seu fim de jornada, com um abraço afetuoso e sem resistência, ela se deixou perder pelas linhas trançadas que formavam a vida daquele homem e percebeu:
Era por livre e espontânea vontade que o mestre havia decidido partir naquele momento, quando a última partícula de luz se apagara sorrateira no centro da testa daquele homem outrora luminoso, então o ar não estava mais no corpo do mestre.
Na mesma posição em que faleceu, a casca do velho mestre permaneceu imóvel como é próprio da mortalidade, o sorriso ainda de aspecto infantil estava em seu rosto com a leveza que fora originado. Poucos compreenderiam, mas foi esse sorriso que elevou o mestre a um estado espiritual transcendental, rumo aos confins do universo.
Lá, onde não poderia se precisar em espaço ou tempo, meio a macacos celestiais e panteras espectrais que tagarelavam continuamente com aves cósmicas e insetos galácticos, ele teve sua existência exaltada e optou por ser diluído mais uma vez na matéria prima dos quais os sonhos são feitos.
No mesmo momento, mas em tempo diferente e de forma assíncrona, aquele homem, que outrora fora gotas que se tornaram luz percebeu que seus pulmões precisavam de ar de forma urgente e desesperada: Deu instintivamente seu primeiro suspiro de vida antes que a ausência de ar o sufocasse como a uma criança sendo afogada. O resto da operação lhe veio naturalmente.
O olho flutuante que permaneceu impassível diante tudo aquilo, piscou uma única vez em satisfação, completude e afirmação do que acontecia enquanto reintegrava-se ao todo para mais uma vez se tornar invisível ao olho comum.
Desaparecendo em um rápido piscar que desencadeou uma reverberação sensível apenas no reino celestial, o ambiente pareceu uma vez mais opaco como estava outrora, o olho sequer parecia ter existido ali.
Gongos tocaram mais alto no momento seguinte, dessa vez eles pareceram elevar suas notas a ponto de aquecer o ar ainda frio da manhã enquanto a notícia do ocorrido era transmitida aos adeptos pelos outros mais graduados.
Um a um os adeptos entravam no quarto do mestre, festejavam sua morte dando-lhe a devida reverência sem sequer olhar para o homem que permanecia nu no quarto com olhar vazio e sem compreender nada, apenas assustado como um animal acuado.
Após algum tempo outros adeptos vestidos de branco, também pela metade, entraram no recinto e cobriram o mestre com uma capa vermelha super heroica, nela dragões ofídicos bordados em ouro pareciam causar transe a quem prestasse atenção.
Eles saíram solitariamente em silêncio após também prestar suas reverências ao falecido mestre, pois se preparavam para encarar tamanha bebedeira que somente era permitida em tais eventos e era apenas o anúncio de que em breve o mestre retornaria a aquele lugar.
Restaram no quarto, apenas a casca do mestre coberta pela capa e o homem nu parado a sua frente. O homem notou que tinha braços e pernas e em sua primeira tentativa de locomoção caiu abruptamente no chão.
Seu corpo experimentou pela primeira vez dor e frio, desacordado, sem que essas palavras ainda desconhecidas encontrassem uma mente para manifestarem-se como algo compreensível. Permaneceu imóvel.
O transe que se iniciou e prosseguiu por tempo indeterminado poderia se chamado sono, mas como chamariam a sucessão de imagens e sensações de sonho, se ainda não havia sequer uma mente viva habitando aquele corpo?
Seria assunto para monumentais e intermináveis discussões filosóficas e existenciais entre os maiores peritos da sabedoria de todas as eras.




















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Cada vez mais confortável em suas narrativas. Parabéns!!!
Obrigado Ka, esse é o primeiro de três contos que possui uma conexão não apenas no título: Tulpa Medula!
bjs, e obrigado por comentar!