Tulpa Medula 2

agosto 18, 2010 em contos

Linhas tortas de Kabbalah Isotrópica

“Onde está a crença nos homens?”

Sessenta e seis anos e seis meses. Essa é era a idade do homem encontrado morto esta noite numa esquina movimentada em frente a um açougue barato. O endereço ainda não pôde ser divulgado.

Um policial que esteve na cena do crime, mas não deseja ter sua idade revelada, disse que o homem foi encontrado deitado com os pés apontando para a porta do açougue e que em seu rosto estava um estranho sorriso fixo por “rigor mortis”.

Ainda, adicionou que ele estava trajando roupas negras e caras do mais fino corte, carregava em sua mão esquerda um pequeno rosário de pedras marrom claro e tinha em sua mão direita traços de argila.

As quatro e vinte da quarta manhã de setembro, de mil novecentos e noventa e nove, o serviço de emergência registrou a chamada do dono do estabelecimento. Teria sido em voz ofegante, aflita e assustada, que o açougueiro fez a ligação informando que havia um corpo na frente de seu estabelecimento.

O Rabino, como era conhecido, respeitado patriarca da comunidade judia, foi assassinado por hemorragia decorrente de espancamento feito por aproximadamente setenta e dois golpes dados contra sua cabeça.

A arma do crime, sua própria bengala, foi encontrada quebrada em duas partes repousando como uma cruz ao lado do corpo próxima à sua mão direita.

Enquanto a autoridade local procura indícios sobre a identidade de seu assassino, a comunidade judaica local se aterroriza por temer que o assassinato tenha sido causado por perseguição antissemita ou conflitos causados por divergência religiosa.

Apenas uma senhora da comunidade judaica aceitou fazer um comentário desde que sua identidade fosse preservada, já que, segundo ela, o assassino poderia procurar e tentar atacá-la ao ver seu nome publicado.

“Fiquei chocada! Que acontecimento terrível e triste. Nenhum de nós consegue imaginar por que alguém faria isso com um homem como ele, embora o comentário sobre ele ter sido encontrado de frente a um açougue proscrito (reconhecido por não servir carne à moda Kosher) pareça não ter sido surpresa para alguns outros anciões.”

O crime permanece sem solução até o momento, tão logo novas informações sejam divulgadas, essa coluna policial as divulgará.

Essa teria sido a notícia que o homem vestido com um sobretudo marrom de aspecto velho e sujo teria lido, se ele estivesse realmente lendo o jornal que segurava como artifício para espiar o belo decote da mulher ao seu lado.

As estações de trem foram passando aos poucos até que a mulher pareceu perceber os olhos penetrantes e insistentes do homem cobiçando sedentamente seu corpo.

Levantando as mãos em direção aos seios, a mulher os ajeitou (sem saber que aquilo apenas o excitara mais) e em seguida os cobriu com a blusa que estava aberta anteriormente, na esperança de não ter de se levantar.

Passaram por mais algumas estações naquele clima tenso e que predizia uma desgraça naquela noite soturna no qual a neblina invadia as ruas, os outros passageiros foram descendo até que restassem apenas os dois sentados no mesmo banco, e outras três pessoas espalhadas pelo vagão.

Com certo temor de que ao se levantar e trocar de lugar, o homem sentisse o terror que ela sentia, ela permaneceu quieta evitando encontrar os olhos do sujeito.

Por fim o homem levantou quando a porta foi fechada para que o trem se deslocasse para a próxima estação. Percorrendo pela espinha da mulher, ela sentiu todos seus pelos se arrepiando numa tentativa de extravasar aquele sentimento: O homem desceria na mesma estação que ela.

Pensamentos terríveis e impactantes passaram pela sua mente, pois certamente o homem já a perseguia a algum tempo, analisando seus hábitos e trajetos para enfim dar seu bote e ceifar seu doce néctar de feminilidade.

Esse pensamento apenas ganhou intensidade quando ela tentou dar uma espiada pelo espelho, que havia levantado para fingir retocar a maquiagem, e foi de encontro à região do órgão sexual do homem constatando que ele certamente estava excitado.

Quando o trem desacelerou anunciando a próxima parada, ela temeu por sua segurança, mas sabia que nada podia ser feito sem que denunciasse sua desconfiança e alertasse ao homem seu temor, afinal, ele poderia ficar furioso com aquilo, escolher outro dia para tentar abordar e forçá-la a cometer os mais pútridos pecados da carne.

As portas se abriram e o homem saiu sem sequer olhar para trás. Ela não tinha dúvidas de que aquele homem forte e mal vestido planejara isso com antecedência, para se posicionar em algum ponto estratégico para a abordagem. Uma gota fria de suor correu entre seus seios.

Sem muito tempo para pensar como se livrar daquele monstro sórdido, levantou-se e saiu do vagão como faria normalmente em qualquer outra noite, rezando para que houvesse alguém conhecido na saída da estação o no caminho para sua casa.

Ao chegar ao começo da escada viu que o homem acabara de descê-la. Suas suspeitas de que ele diminuiria o passo para manter-se próximo a ela foram confirmadas. Sentia-se terrível por ter um raciocínio dedutivo tão preciso e não ter ainda conseguido engendrar nenhuma idéia para escapar de sua sina.

Infelizmente não havia outra alma viva sequer na estação que não fossem os dois, seu corpo tremia e suava freneticamente pelo terrível desfecho que teria sua noite, e sua mente não parava de revisitar as possibilidades das cenas terríveis que seria o atentado contra sua pureza.

Sim, ela era pura, conseguiu manter-se pura pelos trinta e três anos de sua vida completados três meses atrás em um aniversário solitário acompanhada de seus preciosos filhotes felinos. Não havia sido uma tarefa fácil, ela sabia, pois desde tenra idade sentia a todos os momentos o quanto os homens a sua volta a desejavam ardentemente.

Apenas a certeza de que um dia ela seria encontrada por um homem puro, honesto, sem vícios e que saberia apreciar uma verdadeira dama de seu porte, ansioso por desposá-la, conseguia fazer com que ela superasse os olhares insistentes de todos aqueles que a rodeavam.

Com esse pensamento em sua mente conseguiu cortar o fluxo de pensamentos sobre aquela noite e seu fatídico e previsível fim. Talvez se ela gritasse quando fosse abordada e o homem desistiria; Ou talvez um pingo de humanidade restasse naquele monstro trôpego e ele percebesse que sua pureza não devia ser maculada.

Saiu da estação e rapidamente seus olhos ágeis perceberam que o homem andava para a mesma direção que ela. Aquela estratégia teria sido traçada com muita precisão para que ele pudesse se esconder no ponto certo e atacá-la de surpresa.

Enquanto atravessava a rua lembrou-se de um canto escuro entre duas casas que estavam a venda próximas à dela e concluiu que o maldito a pegaria ali e, sem ter a quem recorrer com sua boca tapada, perderia aquele pedacinho de Deus que guardava como presente ao seu amado.

Passo a passo sentia a proximidade do hálito quente daquele homem cruel em seu pescoço;

O toque desenfreado dele procurando a melhor maneira de despi-la rapidamente naquele canto escuro e solitário;

Sua ansiedade e rigidez por percorrer os dedos pelo seu corpo puro e belo;

A saliva nojenta que seria deixada escorrendo enquanto a língua do vil percorresse seus cobiçados seios;

O calor impuro que a profanaria enquanto penetrasse em todos seus mistérios e, por fim, quando mais nada restasse de sua honra, ele a forçaria a fazer os atos mais depravados possíveis, atos que ela conhecia apenas para saber como venerar sua pureza.

Com o corpo em chamas percebeu que seus seios estavam suados e rígidos, aquele calor que sentia era o sinal de que até sua carne já sabia que seria maculada naquela noite escura no qual não havia nenhum ser vivo nas ruas.

Não podendo mais resistir ao pânico que aquilo lhe causava decidiu que se entregaria sem resistência, pois assim seria preservada da fúria abissal daquela besta inumana, abriu os olhos preparada par ao pior e viu: O homem estava com uma criança no colo e beijava uma mulher, os três entraram em uma casa e fecharam a porta.

O frio que a neblina causava cortou seu calor e a trouxe de volta ao mundom sã e salva. Andando os poucos metros que faltavam até o beco onde previra toda aquela atrocidade sentiu a fúria que jamais admitia a si mesmo que sentia:

Não era ela pura e bela o suficiente para que toda sordidez daquele homem vil, cruel e pueril?

O que se passava na mente daquele maldito para fazê-la passar por aqueles momentos terríveis que fizeram sua roupa de baixo encharcar, seus pensamentos entrarem em reinos pecaminosos e impuros…

-Você…

Todos os ossos de seu corpo sentiram um impacto quando chegou de frente ao canto escuro, pois a sua frente estava um monstro marrom de mais de dois metros de altura, sua cor era como se ele tivesse sido moldado em barro e ele a chamara com aquela voz grave e cavernosa.

Tentou correr e se virar ao mesmo tempo, mas aquele fiel salto que usava já há dez anos também devia ter se assustado, pois se quebrou com o movimento. Em sua queda bateu as costas e a cabeça no chão logo a frente do monstro, tentou se levantar, mas os tremores de seu corpo somente permitiram que ela se sentasse.

O monstro tinha sangue nas mãos cujos dedos terminavam em garras terríveis e afiadas, em sua testa viu riscos que brilhavam fracamente em branco no mesmo tom em que em brilhavam esferas que descia de seu pescoço até seu peito, onde terminavam em um sinal de cruz.

Mas não era um monstro, era um anjo e o crucifixo sagrado confirmava isso bem com sua visão!

O ser que estava a sua frente esticou o braço para ajudá-la a se levantar, revelando assim sua face de traços angelicais, esculpidos com perfeição e firmeza sem que existisse maldade ou terror que pudessem abalar tal expressão harmônica.

Ela esticou o braço para aquele ser, que certamente era um emissário de Deus, e foi levantada com calma e suavidade. Num ataque de alegria por tamanha dádiva ela abraçou o anjo para que ele não se desmaterializasse na sua frente, o abraço pareceu durar horas.

Aquele anjo havia sido colocado em seu caminho como resposta aos seus clamores, era o homem pelo qual ela esperara a vida inteira, e antes que ele pudesse sumir, enquanto o anjo retribuía o abraço reconhecendo ela como sua peça de pureza, sua mão correu para o volume rígido que sentiu entre as pernas do anjo.

- Feia!

Não houve tempo para ações ou reações, ao ser tocado daquela forma, o ser a afastou com velocidade e fúria segurando sua cabeça, ela pode apenas ver a expressão de fúria como se o céu caísse sobre sua cabeça e, como se dessa corda em um relógio de mola solta, a girou arrancando de seu pescoço.

Outros dois assassinatos estranhos ocorreram na noite passada em um beco escuro, entre duas casas a venda de uma rua movimentada do subúrbio.

As vítimas foram: Uma mulher, funcionária de uma repartição pública, solteira e sem família cuja morte deixou treze gatos órfãos e um homem, funcionário da companhia de trens que havia deixado seu trem na estação poucos minutos após fazer a última viagem. Seus nomes ainda não foram divulgados.

Fontes confidenciais nos confirmam que os dois corpos foram encontrados por uma excursão de nove crianças que passava pela região às dez horas da manhã de ontem, a professora que os acompanhava fez a ligação para o serviço de emergência após deixar as crianças aos cuidados de um funcionário que trabalhava na mesma repartição que a mulher.

Nossas fontes afirmam ainda que as duas vítimas foram mortas por decapitação, ambos estavam com vestígios de suor e fluídos sexuais o que sugere que estavam prestes a cometer um ato de atentado ao puder, com uma relação sexual ao ar livre.

Após identificação do homem, duas mulheres da mesma região puderam identificá-lo como o autor do estupro ocorrido com ambas nas semanas posteriores. Uma das mulheres, que se desejou manter sua identidade preservada, declarou aliviada pela morte de seu agressor o seguinte:

“Se aquela piranha maldita estava tendo relações com aquele maldito abominável por Deus, ao ar livre, não posso sentir pena ou tristeza por sua morte. Seja lá quem fez isso, foi instrumento nas mãos da justiça divina e varreu da face da terra dois pecadores imorais!”

O crime permanece sem solução até o momento, tão logo novas informações sejam divulgadas, essa coluna policial as divulgará.

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