Tulpa Medula 3

agosto 20, 2010 em contos

Narcisos e moedas de prata a adornar

“Alguns homens encontram na fé o sentido de seus atos, outros encontram no sentido de seus atos a fé.”

Poucos minutos já haviam se passado das dezoito horas naquela quarta-feira chuvosa, ventos frios balançavam as frágeis árvores que acompanhavam o limite da calçada.

Um casal se movia a passos apressados em direção a uma casa antiga, recém-reformada pela iniciativa privada de seu comprador, o incógnito fundador de uma sociedade de estudos sociais e de cognição coletiva.

Deram duas leve batidas na porta anunciando sua chegada e enquanto aguardavam a recepção, trocaram poucas palavras tentando movimentar alguma energia que lhes protegesse do frio.

- Você acha que vai dar certo? – perguntou o homem soltando uma lufada de ar quente condensado pelo frio.

- Já deve ter funcionado, ou não teriam nos chamado aqui tão urgentemente.

- Você deve ter razão, mas ainda custo a acreditar que já tenha funcionado. Veja bem, eu acredito na possibilidade, mas não creio que em tão pouco tempo já tenhamos tal resultado. – o ar incrédulo do homem vacilava a cada palavra.

- Sim, realmente é pouco tempo para tal resultado, mas se acreditamos na possibilidade, não há motivos para que não possamos acreditar nessa velocidade – e completou – apenas a firmeza de nossos pensamentos nos dá qualquer certeza.

Alguns passos foram ouvidos em direção à porta e o ranger do ferrolho anunciou que alguém ouvira os toques.

- Ainda assim – insistiu o homem – não sei se acredito nesse resultado milagroso com algo tão import…

Com a abertura da porta, o homem se calou e decidiu que sua dúvida não teria resposta enquanto não permitisse a si mesmo tal possibilidade. Acenou com a cabeça à senhora que abrira a porta, e tomando novamente a mão da mulher ao seu lado entraram na antiga casa.

Seguiram-na após terem retirado seus casacos molhados, o ambiente silencioso indicava que o momento de preparação onde costumavam conversar para exteriorizar toda descrença terminara, por fim entraram na sala que por duas semanas frequentaram religiosamente.

Dez das doze cadeiras dispostas em um círculo perfeito já estavam ocupadas, após abrir o caminho e deixar que o homem e a mulher entrassem, a senhora saiu fechando a porta atrás de si, deixando-os naquela sala bem iluminada com cortinas em cada uma das janelas.

Dirigiram-se aos seus respectivos assentos e ali sentaram com a respiração ainda ofegante de quem tivera de correr dada a urgência do chamado feito. Ambos fixaram os olhos na urna ao centro do círculo, ela que tinha passado a fazer parte de seus pensamentos diários desde que iniciaram aquele processo, em seguida relaxaram.

Cada uma das doze pessoas que estavam ali traziam consigo uma carga emocional que já sabiam ser o que tinham em comum, eram seis casais das mais diversas idades, crenças e condições sociais, todos unidos pelo mesmo golpe de amargor.

Quando há algumas semanas o Velho comprador da casa entrou em contato com cada um dos casais relatando o fato que todos traziam em comum, fazendo-lhes o convite para a primeira reunião sem que ainda soubessem do que se tratava, o mundo em que viviam ainda era repleto de sombras e esperança era uma palavra esquecida.

Aquele primeiro encontro feito em um jantar teve um sabor estranho de incerteza e desconfiança ao passo que cada um dos casais notava não ter nada a ver um com o outro, aparentemente, sequer partilhariam de ideias semelhantes.

Foi após todos terem se alimentado, e o Velho anunciar a única condição que eles partilhavam, que a areia da desconfiança caíra de seus olhos. Foi apenas a partir daquele momento que a empatia se fez presente e cada um deles pode partilhar a dor que sentiam.

A proposta inicialmente foi considerada um ato de má fé por aqueles que rapidamente manifestaram raiva e dor por pura desconfiança e rejeição das possibilidades. Após os fatos terem sido apresentados junto às provas que evidenciavam o motivo comum, as mentes conseguiram então prestar verdadeira atenção ao objetivo ali proposto.

Convencer cada um dos presentes ali, que o Velho e sua esposa eram pessoas que partilhavam verdadeiramente a mesma dor, e que na condição social que se encontravam não existia ali nenhum engodo feito para aproveitar-se de um momento de fraqueza, foi o fator decisivo para que todos aceitassem a proposta.

No decorrer dos quase quatorze dias os casais puderam conhecer um ao outro e compartilhar seus sentimentos, formaram laços que o Velho disse serem necessários para o objetivo, em paralelo, eles conseguiam unir a mesma força que os movia fazendo com que a vida de cada um deles passasse a ter novamente sentido.

Os doze, após a reunião informal, agiam como instrumentos cirurgicamente precisos organizados pacientemente na urna que ficava ao centro, reunidos, praticavam algo simples enquanto permaneciam sentados naquelas cadeiras velhas, alinhavam suas mentes em prol de transformar tal urna em um objetivo tátil comum.

Em momento algum foi dada uma promessa de que o objetivo seria alcançado, não foram feitas falsas promessas e dadas esperanças sem sentido, no entanto o esforço necessário foi julgado merecido e justificado.

As palavras exatas do Velho foram a de que não seria a intensidade ou o aperfeiçoamento que trariam o resultado, mas sim um momento único, onde de forma aleatória todas as mentes ali pensassem exatamente da mesma forma:

E isso poderia jamais vir a acontecer!

Descrença ocorria com frequência, alguns casais pensaram em desistir daquilo quando o sofrimento tal qual um coração doente, pulsava, e naquele momento toda a dor era resgatada de forma cruel como o sangue venenoso se espalhasse pelo organismo.

Foi com companheirismo que tais momentos foram superados, assim foi possível manter a coesão do grupo passando por momentos difíceis onde desistir parecia mais fácil. Aceitar a dor e tentar prosseguir com a vida era o caminho que se opunha à persistência do objetivo.

Cada passo era dado com um único intuito, e a empatia por sua vez, fez com que lentamente todos se tornassem apenas Um, sem ânsia de resultados e com a mente liberta para que operasse em comunhão.

Nessas lembranças estava a entrega que culminou naquela reunião, cada um deles se entregara ao devaneio da possibilidade lentamente, alguns sorriram com naturalidade enquanto outros deixaram uma lágrima solitária escorrer, e exatamente como possibilidade, as mentes entraram em perfeita sintonia.

Os vinte e quatro olhos de diferentes idades, raças, condições sociais se abriram ao mesmo tempo, no entanto não eram vinte e quatro olhos pertencentes a doze pessoas, mas sim pertencentes a um ser, a uma Legião.

A Realidade sofreu um golpe, e tendo uma parte de si rasgada fazendo com que o reino da possibilidade se manifestasse, um grito foi dado ali:

O metal dos carros das redondezas se distorceu, a madeira de algumas árvores entrou em combustão e o vidro de muitas janelas e portas enegreceu com padrões fractais em seu interior.

Os animais por sua vez pararam por apenas um momento tomando ciência do que acontecia em sua irracionalidade, os homens dos arredores sequer notaram o grito.

Apenas a Senhora que recebia os convidados entendeu alguma coisa, de uma maleta, que julgara jamais vir a abrir desde sua contratação, pegou um pano branco e felpudo de toque quente, confortável, com o qual poderia embalar qualquer fragilidade sem riscos.

Ela passou novamente pela porta da sala e as pessoas ali permaneciam sentadas em seus lugares sem sequer dirigir-lhe um olhar, ela atravessou a sala e abriu a urna pela primeira vez.

Seus olhos mantiveram-se atentos e não emotivos, viu que ainda brilhava em dourado a pele da criança que surgira ali. Com cuidado retirou aquela criança ainda chorosa da urna e a envolveu no pano confortável.

Aquela sucessão de cortes na realidade (o abrir da urna e uma criança retirada) se repetiu por mais cinco vezes na mesma noite, ao término dela ninguém mais se lembrava da vacina infecciosa que matara sumariamente seis crianças há três meses.

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