Uma visita ao inferno

Azazel1

Vi a gata logo no começo do quarteirão, vestia uma calça de couro vermelho que modelava bem sua pequena bunda, os seios quase não existiam soltos em uma blusa de seda branca com um cavalo marrom estampado, conversava animada com as amigas que compartilhavam aquele mesmo visual antiquado de ativistas feministas.

Acima das mulheres o letreiro do Pussy Cave brilhava com um “a” meio apagado, o verde e o rosa ali já estavam mais poluídos que meus pulmões antes do transplante, a vaqueira jogou a franja para o lado e seu cabelo num tom de palha seca ficou semelhante ao de uma dona de casa antiga. Eu ri.

- Você é a vaqueira?

- Sou, e você quem é? – ela rapidamente assumiu uma postura defensiva cruzando os braços e empinando no nariz, colocou um pé de lado com sua botina cinza e ficou me encarando como uma criança provocando.

- Sou amigo de Narukh – levantei a mão mostrando a tatuagem de uma cruz dupla perfeita – você que leva as pessoas pro céu e pro inferno?

- Não, pro céu eu só faço com que eles se sintam por lá, pro inferno sim, eu apenas abro a passagem. – O ar de criança não mudou em nada, somente o lábio sendo levemente mordido por dentro mostrava que ela sentia-se em triunfo.

- É isso mesmo vaqueira, eu preciso esticar as pernas no inferno sem deixar esse mundo de vez, pode ser agora?

Num aceno as outras garotas pararam de falar, ela assumiu sua posição natural de líder oculta naquele véu superficial de causa feminista, as garotas que não sabiam dos negócios malucos da vaqueira foram levadas para longe pelas duas únicas comparsas. Ficamos sozinhos debaixo do letreiro a menos de dois passos de distância.

- Escuta aqui, amigo do Narukh, eu cobro caro e não aceito piadinhas. Ainda quer “agora”?

- Onde você quiser – saquei um saquinho transparente onde ela certamente podia ver dois diamantes – acho que isso paga né?

Reflexo rápido, ela pegou o saquinho e sem demoras jogou as pedrinhas na mão, olhou elas contra o neon e disse:

-Tá pago! Agora vamos pro meu apartamento, não quero terminar isso tarde.

Não era uma moradia, era uma biboca de quinta alugada e mantida apenas com um colchão rosa desbotado, uma TV de plasma e um canto de latas de cerveja, ela me levou até um dos quartos e sentou no chão.

-Senta, o chão não morde.

Fiz como ela pediu, e fiquei encarando ela enquanto aspirava o conteúdo de um frasco de vidro verde, vi que os olhos vidraram e com certeza ela estava possuída naquela hora.

- Pra onde você quer ir, circulos dantescos, infernos muçulmanos…

-Dudael! – era meu destino naquela noite.

-Tem certeza? Dudael mesmo? – a descrença dela era a de alguém acostumada a lidar com grandes desejos e invencionices, o deserto de Dudael era só mais um pedacinho do inferno cristão. Não tinha muito segredo.

-Só, por cinco minutos apenas.

Ela parou por um segundo, enfiou a mão no bolso e tirou um dos diamantes, jogou em minha direção e disse.

-Esse aqui – mostrou o que ficou com ela – já paga sua viagem umas vinte vezes. Vamos lá, qual é a pegadinha, amigo do Narukh?

-Não tem pegadinha, eu preciso ir pra lá, ficar cinco minutos e voltar. Só que você precisa me trazer inteiro, sem nada faltando de lá, especialmente minhas memórias. – Joguei o diamante de volta para ela.

-Tudo bem, ainda não é motivo, mas se você quer pagar bem eu faço no capricho.

-Isso ai vaqueira, esse é o espírito!

Ela acenou com a cabeça e percebeu que eu escondia algo, mas por aquele pagamento valia a pena arriscar, deu uma forçada na garganta e cuspiu no chão encardido, bateu ao lado do cuspe no assoalho velho e falou:

-Pode vir buscar.

O chão tremeu por um momento como se algo tivesse se chocado contra ele. Quando olhei com descrença pra ela, recebi em resposta um sorriso de criança mimada, com um mordisco na língua e a certeza de que ia aprontar alguma coisa.

Vários tentáculos negros saíram do chão sem rasgar ou quebrá-lo, se enrolaram a minha volta mais rápido do que consegui xingar:

-Porra!

Fui jogado pro Inferno.

No Inferno existe céu, ele é vermelho e bem clichê, em Dudael você pode ver ao longe uma estrela de brilho rosa que não apaga nunca. É sempre dia e a areia parece mais dura e pesada que a da terra, a vaqueira era boa mesmo e me jogou lá mais rápido que os veteranos sempre alegavam fazer.

A cidade de Midian estava a minha frente, eu já conhecia seus prazeres e perdições, mas não queria passear por ali naquela hora, tomei um rumo paralelo à cidade e fui direto pra onde queria.

Não precisava de mais de cinco minutos, por incrível que pareça andar no deserto de Dudael é mais rápido que acelerar em um caça super sônico, uma lufada de vento me soprou no rosto e por um momento senti o vácuo atrás de mim enquanto me deslocava.

Cheguei na muralha dos estacados, a muralha começava com um rosto de macaco modelado em escárnio e se prolongava pela eternidade de lá, só precisei lembrar o nome do bastardo e na mesma velocidade que cheguei à muralha, estava de frente a ele.

- Então você veio pra ca mesmo. Que bom que não me enganaram.

Devo ter sorrido igual a um demônio, o estacado não podia falar mas eu podia retirar dele tudo que quisesse, e o que eu queria era simples.

Vasculhei por uns dois minutos na alma atormentada dele, é engraçado mas a alma dos atormentados é a mais organizada de todas, acho que combina com a ironia de ficar mais fácil criar conflitos de oposição, bem e mal, certo e errado… tudo em que o babaca acreditava em vida.

A lembrança que eu queria estava como a cereja no topo de um bolo, ele ainda guardava ela intacta para mais algumas eternidades de sofrimento masoquista puro: O pior dos condenados é que eles adoram ficar sofrendo pela eternidade.

Cerca de dez segundos, foi o tempo que durou a lembrança que eu precisava: O bastardo digitava o segredo no cofre de um banco, olhava para o papel com a conta numerada e o emblema: Banco Central de Beijing!

Senha, número, banco.

Eu já tinha o suficiente, os olhos dele pareceram perceber que havia roubado a lembrança com a qual ele pretendia se deliciar em eternidades futuras, e eu consegui ler nos olhos dele: Filho da Puta!

Apertei um pouco mais a estaca que devia perfurar o pulmão dele, mesmo não respirando mais, o corpo se contorceu como se todo ar fosse expulso, depois de resolver meus negócios não custava nada um gesto de prazer.

Bem antes dele sequer recobrar a consciência, me movi de volta para o lugar onde a vaqueira me jogou, ela era precisa como um reloginho.

Vitrificando-se ao meu pé, a areia começou a mostrar um fundo onde eu podia ver a vaqueira e uma marca de queimado no assoalho, em alguns segundos estaria a salvo.

Esperei um pouco e ouvi ao longe um ruído, virei e pude ver uma nuvem de demônios revoltados tentando me alcançar, eles estavam putos por serem roubados em sua própria casa.

Enquanto os seres que pareciam com vermes brancos alados voavam em minha direção dependendo da física do lugar, o vidro que estava abaixo de mim se transformou em um líquido, passei por ele e senti como se caísse em um lago glacial.

-Porra!

-Bem vindo de volta gatinho, agora que já fez sua viagem, que acha de nos divertirmos? – Aproveitadora, ela queria um extra e ia colocar o corpo dela na negociação.

Fiquei tentado por algum tempo, olhei para ela de volta e pensei em minha ninfa Tailandesa me esperando no aeroporto, a vaqueira parecia ter um bom sexo mas não era o bastante pra me impedir de por a mão naqueles milhões.

Me levantei e limpei a sujeira da calça, ela entendeu a recusa com bom humor e perguntou, ao menos posso te pagar um drink?

A vaqueira não ia desistir tão fácil de me laçar.

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